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  • “quando me ponho a pensar que a minha família — que estava ali, real — no espaço de poucos anos desapareceu assim, uma pessoa de cada vez, acho que não sou capaz de acreditar em mais nada. ter ficado sozinha nesta casa onde cresci, enquanto o tempo continua a passar normalmente, me deixa desorientada.”
  • “quando estou cansada de tudo, quando estou irritada, quando à noite me dou conta da solidão e telefono insistentemente para os amigos e ninguém responde, odeio ter nascido, odeio a minha educação, odeio tudo. fico infeliz com tudo.”
  • “às vezes, no escuro, me aproximo passo a passo da beira de um precipício, mas se acabo encontrando uma estrada, dou um suspiro de alívio. mesmo quando acho que não vou aguentar mais, sei que conheço a beleza do luar.”
  • “a tal ponto compreendi que desespero não leva necessariamente à aniquilação, que a gente pode ir levando a vida, apesar de tudo. eu endureci. acabei ficando adulta como todo mundo, capaz de conciliar as contradições mais terríveis. só assim a vida ficava mais fácil. exatamente por isto, agora meu coração estava pesado.”
  • “eriko não existia mais. foi naquele momento, olhando para aquela cena, que realmente entendi. não importava o rumo que as coisas entre mim e yuichi iriam tomar. por mais longa e bela que a vida pudesse ser, eu nunca mais a encontraria.”
  • “o mundo em que até bem pouco tempo tinha vivido, por uma razão qualquer, me deixara para atrás com um impulso irrefreável. aturdida, eu tinha ficado às suas costas; não tinha conseguido fazer nada a não ser reagir debilmente. porque quem mudou de lugar não fui eu. pelo contrário. tudo fora terrivelmente doloroso para mim.”
  • “a pessoa amada só devia morrer depois de uma longa vida. perdi hitoshi aos vinte anos. sofri com isso ao ponto de sentir que a minha própria vida tinha parado. na noite em que ele morreu, minha alma se transferiu para outra dimensão e não consegue voltar de jeito nenhum. para mim, é impossível ver o mundo com os olhos de antes. minha mente flutua indo e vindo, sem a menor estabilidade, sem descanso, numa confusa desolação.”
  • “dormir à noite era a coisa que mais me assustava. porque o choque ao abrir os olhos era terrível. acordava sobressaltada, e na hora em que percebia que ele não existia mais, a escuridão profunda me apavorava. todos os meus sonhos tinham algo a ver com hitoshi. no meu sono leve e angustiado eu encontrava e perdia hitoshi continuamente. o tempo todo eu sabia que era apenas um sonho e que na realidade eu nunca mais o encontraria. por isso fazia de tudo para não acordar.”
  • “ia até a ponte e voltava, lavava a toalhinha do rosto e as roupas usadas, punha tudo na secadora e ajudava minha mãe a preparar o café da manhã. depois dormia um pouco. minha vida seguia em frente assim. à noite me encontrava com meus amigos, assistia à uns vídeos, fazia de tudo para não ficar sem fazer nada. mas era um esforço inútil. havia uma única coisa que eu realmente gostaria de fazer: ver hitoshi. mas precisava manter as mãos, o corpo, a mente em movimento a qualquer custo. se continuasse a tentar, em dado momento uma frestinha se abriria: pelo menos me esforçava por acreditar nisso. não havia a menor garantia, mas eu achava que conseguiria resistir. quando meu cachorro morreu, quando meu passarinho morreu, eu tinha me virado mais ou menos assim. mas agora não funcionava. os dias passavam sem perspectivas à vista, como se eu estivesse perdendo a razão aos pouquinhos. eu continuava a repetir, como se estivesse rezando: "vou conseguir, vou conseguir sair disso. é só uma questão de tempo.”
  • “tudo o que eu queria era passar por isso o mais rápido possível para ver o dia em que as memórias seriam apenas memórias. mas quanto mais eu queria isso, mais longe me parecia. pensar no futuro só me fazia estremecer.”
  • “as pessoas não são superadas por situações ou forças externas; a derrota invade de dentro, eu pensei. eu havia perdido a minha última gota de força. diante dos meus olhos, algo estava acabando, algo que eu não queria que acabasse, mas pelo qual me faltava energia para sofrer, muito menos para lutar. havia apenas uma desesperança enorme dentro de mim.”
  • “eu queria ser feliz. mais do que a dificuldade de continuar a escavar o fundo do rio, me atrai o punhado de areia dourada que encontrei. gostaria que todas as pessoas que amo fossem mais felizes do que são.”
  • “peço-lhe, do fundo do coração, que guarde para sempre junto de você a imagem da garota que fui. obrigada por ter-se despedido de mim acenando. por ter-se despedido acenando muitas, muitas vezes.”
jun 7 2020 ∞
mar 11 2021 +