• afrodite,

vens do amanhecer, és erguida da espuma e pereces no céu.

a espuma do mar assemelha-se às brancas rosas. dali tu brotas, mais bela que qualquer flor antes germinada por gaia, e a canção de teu ser enlaça a suavidade da brisa e o bálsamo d’água. como falham os hinos antigos, mesmo as árias pinceladas de teu nome, ao dizerem que antes de ti mundo havia! a natura era escassa em cor, a maré delgada em pérola, o céu, nu e sem nuvens. teu amor, a doçura que rebenta de teu sorriso, o ornamento de cachos sobre teu rosto, tua beldade pura; é isto, isto que faz da vida realmente vida, do ar um bafejo digno de ser respirado. doas tua beleza às estações bordadas pelas rendas das horas, concedes tintura às rosáceas e amor aos corações deíficos e humanos… amor, amor, amor… ora, tua existência criou este elemento que a tudo colore, não apenas ao abril  — fizeste do universo um lar de transcendência e união! esses cravos e esses ramos, essas floras luminosas que nós mortais chamamos de estrelas, essa aurora cor-de-rosa em que cintila a luzeira matutina, em elo vivem porque tu existes, com teus dedos passionais e carinhosos e teu hálito a marejar em meiguice; e se há a poesia e a formosura musas dos poetas e artistas, é em razão de ti, em celestial gentileza, conferi-las a divindade de teu olhar afável. ninas as pétalas níveas das asas do anjo filho teu, borbotas nácar e madrepérola da areia, e eternizas a graciosidade no etéreo… a tua presença conforta-me em canções sobre dias primaveris, conchas róseas achadas à beira-mar, amareladas borboletas, cartas de amor, cacarejos de bem-te-vis, e este sentimento avermelhado, em degradê de pálido rosado a forte carmesim, é o que compõe meu imo, que torna delicioso e excelso o ato concreto de ser…

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sinto que dás-me asas, mas como a um beija-flor viciado em mel, fazes meu eu sonhador ser também corpóreo, dedilhando cada murta, inalando o perfume de cada begônia e alfazema. e minha alma habitante de corpo quente voa na névoa, quase borrada, perdida por entre o riso das fadas cerúleas e o aro do cupido... tudo conecta-me a ti, invariavelmente, desde a vila litorânea banhada pelo nosso lar marítimo aos finos anéis coroando minha cabeça. cada predileção, cada devaneio, cada respiro exalado; existem por conta de ti e para ti. estás na minha arte de prosa e nos desenhos pequeninos, nas teclas que toco, nas vozes que fiz, no meu dançar livre, nos meus tímidos risos  — e estás ao meu redor… tudo, tudo é teu amor, e este universo e esta natureza são mágicos sem precisar de quaisquer sonhos; feéricos em simplicidade e magnitude, porquanto têm teu toque desejoso e delicado. escapismos são apenas diversões insólitas de minha mente fantasiosa; pois reconheço a vida, em seu nascer e seu fim, como os campos elísios e o jardim do éden, imersa no encanto de vênus a cada novo alvorecer... afrodite, afrodite, de urânio amor, se todos achassem em seus âmagos a partitura de tua divina sinfonia, gotejariam em gratidão tão sublime, e eu não seria a única a cantar-te cada palavra e cada alento… mas deitada em teu acalento, ouvindo tua voz tão melíflua e branda, não me importo em ser uma das poucas ainda sucumbidas à esta venusta poesia. refugio-me em teu colo, teu alvo ninho, e sim, viver é estar no próprio paraíso.

um de minha infinidade de hinos à deusa do amor.

jul 8 2019 ∞
aug 20 2020 +