canção dos mimos-de-vênus

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ode ao mês setembro

à afrodite e ibeji

na manhã do tenro abril da tropicália, as faíscas da estrela d’alva caem, vaporosas, respingando róseos laivos em minha pele… os lábios de vênus, mais rosados que o lume, tocam os meus como uma jura quieta de que, sim, n’aquela terra será sempre aurora e sempre primavera; o nosso beijo é nuançado como um hibisco… ah, como os hibiscos que ali choram, orvalham pérola! embriago-me das lágrimas florais, do perfume oloroso pairando na bruma sobre os arbustos, e do constante carinho das ervas daninhas afagando minhas pernas… sopro, um por um, cada dente-de-leão, meu ver turvo pelas pétalas tímidas valsando no airoso. não ouço nada senão o murmúrio recorrente dos grilos, a cantoria das cigarras, os marulhos ligeiramente longínquos… mas posso jurar que o farfalhar das folhas em nada se difere dos risos das fadas! e eu mesma rio, ah, rio de deleite, rio por estar na eternidade de rosáceas e murtas, rio pelos beijos de vênus e pelo seu doce, doce sorriso, rio pela corada estrela que afogueia meu coração! rio pelos acastanhados cachos que cobrem meus olhos de mesmo tom, ah, e rio pelos meus próprios luzeiros, pelas janelas marrons de minh’alma quente! e quanto mais rio, mais meu fogo torna-se líquido, mais o líquido torna-se ar, mais o palpitar de meu órgão vital, por afrodite bordado, tinta-me em claro carmim; o enlevar me eleva para o mar de nuvens, para o misterioso empíreo do céu, para perto do meu áster a fagulhar e minha deusa a amar…

e miro do alto minha terra açucarada, terra do sempre-setembro, de infantes pueris a distribuírem doces no dia vigésimo sétimo, de ninhos quentinhos e de mamães cegonhas-brancas a assobiarem em alegria para suas filhotes, e a rosa-dos-ventos a apontar apenas para o leste… é lar em que o alvorecer imorredouro eterniza também o nono mês da gestação, setembro; o dar à luz! como é belo ver sempre o encarnar, a aurora a acariciar a testa de cada criança, o equinócio vernal do setemês abrolhando em riachos lamentosos no ventre da mãe-terra, o vergel brilhando em verde, as rosas brilhando em rosa, o cupido gargalhando ao abarrotar de amor o ar! é fácil ser feliz na aldeia de ébrio aljôfar quente, d’água dissolvida em néctar, de vida começando, de vida vivendo… a saudade ainda pesa em meu corpo embaçado  —  a saudade de meu jardim cultivador da inocência, das camas de lírios-estrela-d’alva, de cheirar a maracujá e alecrim, de dançar balé com a flor de cerejeira, de brincar de pega-pega com o beija-flor níveo, de ter meu coração por hibisco mordido... mas há pétalas suaves também no peito de vênus, e seu desabroche ensina-me que amar basta, que o alvor setembril é infinito como o abraço de démeter em coré, impregnado em meu poro diáfono ao sentir cada acariciar afrodisíaco, ao devanear cada sonho na matutina estrela… ah, pouco importa a distância, pouco importará, porquanto o meu pulsar é equatoriano e enfeita-me em pérola, pinta-me de avermelhado leve; porquanto meu amor nasce e renasce perante sempiterno setembro!

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cantam também as flores cerejeira

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