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the day mankind understands what the sun is made of and its power, perhaps we'll understand the entire universe and the reasons behind so many things.

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elsa 避雷針
maria 2022 (books)
  • 01 — hermann hesse siddhartha
    • ⤹ ★★★★★

não eram os deus figuras criadas da mesma forma que tu e eu, perecíveis, dependentes do tempo?

sempre almejei o conhecimento; sempre abriguei em mim grande número de perguntas. consultei os brâmanes, ano por ano, e consultei os piedosos samanas, ano por ano. talvez, ó govinda, fosse igualmente oportuno, sensato e proveitoso interrogar uma ave ou um chimpanzé. gastei muito tempo e ainda não cheguei ao fim, para apenas aprender isto: que não se pode aprender nada! acho que a tal coisa que chamamos "aprender" de fato não existe. existe, sim, meu amigo, uma única sabedoria, que se acha em toda parte. é o átman, que está em mim e em ti e em qualquer criatura. e por isso começo a crer que o pior inimigo dessa sabedoria é a sede de saber, é a aprendizagem.

são momentos durante os quais o homem escapa à tortura de seu eu. fazem-nos esquecer, passageiramente, o sofrimento e a insensatez da vida.

pouco valor têm as opiniões, sejam elas lindas ou feias, sensatas ou estúpidas. qualquer um pode agarrar-se a elas ou também refutá-las. mas a doutrina que ouviste da minha boca não é nenhuma opinião e não tem propósito de explicar o mundo a pessoas àvidas de saber. seu desígnio é a redenção do sofrimento. o que gotama ensina é ela e nada mais.

se o mundo é bom ou mau, se a vida em seus confins é sofrimento ou prazer, essa pergunta pode permanecer sem resposta. pode ser que aquilo tenha pouca importância. mas a unidade do mundo, o nexo existente entre todos os acontecimentos, o fato de todas as coisas, tanto as grandes como as pequenas, estarem incluídas no mesmo decorrer, na mesma lei das causas, do devir e do morrer... tudo isso, ó augusto, ressalta luminosamente, na tua excelsa doutrina. mas, nessa mesma doutrina, há um único lugar que tal unidade e lógica das coisas estejam interrompidas. por uma minúscula lacuna penetra na unidade desse mundo um elemento estranho, novo, que antes não existiu, que não pode ser mostrado nem comprovado. refiro-me à tua tese acerca da possibilidade de superarmos o mundo e alcançarmos a redenção. ora, essa pequeníssima lacuna, essa brechazinha, basta para destruir e liquidar toda a unidade e eternidade da lei cósmica.

quem se puser a decifrar um manuscrito, cujo significado lhe interessar, tampouco menosprezará os sinais e as letras, qualificando-os de ilusão, de casualidade, de invólucro vil, senão os lerá, estudá-los, amá-los, letra por letra. eu, porém, que almejava ler o livro do mundo e o livro da minha própria essência, desprezei os sinais e as letras, em prol de um significado que lhes atribuía de antemão. chamei de ilusão o mundo dos fenômenos. considerei meus olhos e minha língua apenas aparentes, casuais, desprovidos de valor. ora, isso passou. despertei. despertei de fato. nasci somente hoje.

não me cumpre julgar a vida de outrem. devo opinar, escolher, rejeitar unicamente no que se refere a mim mesmo.

era o meu propósito aprender o amor pelos ensinamentos da mais formosa de todas as mulheres. a partir do momento em que me propus a isso, sabia também que realizaria as minhas intenções. tinha certeza que tu me ajudarias. sabia-o desde que me olhaste pela primeira vez, na entrada do teu parque.

já não ia em busca do essencial. já não visava o além. como era belo o mundo, para quem o olhasse assim, ingenuamente, simplesmente, sem nada procurar nele!

todas as pessoas são capazes de alcançar seus objetivos, desde que saibam pensar, esperar, jejuar.

a maioria das criaturas humanas é como folha arrancada, a flutuar e revolver-se no ar, até ir ao chão. outras, porém, parecem-se com os astros que andam numa órbita fixa, sem que nenhum vento possa alcançá-los e têm em si próprios sua lei e sua rota.

- dize-me o rio também te comunicou o misterioso fato que o tempo não existe - perguntou-lhe sidarta certa feita. o rosto de vasudeva iluminou-se num vasto sorriso. - sim sidarta - respondeu - acho que te referes ao fado de que o rio se encontra ao mesmo tempo em toda parte, na fonte tanto como na foz, nas cataratas e na balsa, nos estreitos, no mar e na serra, em toda parte, ao mesmo tempo; de que para ele há apenas o presente, mas nenhuma sombra de passado nem de futuro. não é isso que queres dizer? - isso mesmo - tornou sidarta - e, quando me veio essa percepção, comtemplei a minha vida, e ela também era um rio. o menino sidarta não estava separado do homem sidarta e do ancião sidarta, a não ser por sombras, porém nunca por realidades. tampouco eram passado os nascimentos anteriores de sidarta, como não fazia parte do porvir a sua morte, com o retorno ao brama. nada foi, nada será; tudo é, tudo tem existência e presente.

são muito raros os homens que saibam escutar, e ainda não encontrei nenhum que dominasse essa arte com tamanha perfeição. também nesse ponto serei teu aprendiz.

quem entendesse a água e seus arcanos - assim lhe parecia - compreenderia muitas outras coisas ainda, muitos mistérios, todos os mistérios.

porque o amas e deseja isentá-lo de mágoas, dores e desilusões? mas, mesmo que morras por ele dez vezes, não lograrás alterar nada do destino que o aguarda!

a imagem do pai, a sua própria imagem e a do filho, todas elas se confundiam ... o rio rumava em direção à sua foz. sidarta percebia a pressa daquela corrente formada por ele mesmo, pelos seus, por todos os homens que já se lhe haviam deparado. todas essas ondas e águas, carregadas de sofrimentos, precipitavam-se em busca de suas metas, que eram muitas, as cataratas, o lago, o estreito, o mar, uma a uma, as metas eram alcançadas, mas a cada qual seguia outra; da água formava-se bruma, que subia ao céu, transformava-se em chuva, a cair das alturas, virava fonte, virava regato, virava rio e novamente iniciava a sua jornada, novamente fluía rumo à meta.

compreendia a sua existência jamais orientada por raciocínios e percepções senão exclusivamente por instintos e desejos ... chegava ele a entender que os seres humanos viviam em função dessas coisas e que justamente elas os capacitavam para proezas incríveis, permitindo-lhes fazer guerras, empreender viagens, suportar tudo e resistir a sofrimentos sem fim.

sei amar uma pedra, ó govinda, e também uma árvore ou um pedacinho de sua casca. são coisas que podem ser amadas. mas não posso amar palavras. por isso não me servem as doutrinas. não têm dureza nem maciez, não tem cores nem arestas, nem cheiro nem sabor. não têm nada a não ser palavras. talvez seja esta a razão por que não encontres a paz: o excesso de palavras. pois, govinda, também a redenção e a virtude, o sansara e o nirvana são meras palavras. não existe coisa alguma que seja nirvana. o que existe é apenas a palavra nirvana ... tenho para mim que o amor é o que há de mais importante no mundo. analisar o mundo, explicá-lo, menosprezá-lo, talvez caiba aos grandes pensadores. mas a mim me interessa exclusivamente que eu seja capaz de amar o mundo, de não sentir desprezo por ele, de não odiar nem ele nem a mim mesmo, de contemplar a ele, a mim, a todas as criaturas com amor, admiração e reverência.

os conhecimentos podem ser transmitidos, mas nunca a sabedoria. podemos achá-la; podemos vivê-la; podemos consentir em que ela nos norteie; podemos fazer milagres através dela. mas não nos é dado pronunciá-la e ensiná-la ... "o oposto de cada verdade é igualmente verdade" isso significa: uma verdade só poderá ser comunicada e formulada por meio de palavras quando for unilateral. ora de unilateral é tudo quanto possamos apanhar pelo pensamentos e exprimir pela palavra. tudo aquilo é apenas um lado das coisas, não passa de parte, carece de totalidade, está incompleto, não tem unidade ... uma vez que facilmente nos equivocamos, temos a impressão de que o tempo seja algo real. não, govinda, o tempo não é real, como verifiquei em muitas ocasiões. e se o tempo não é real, não passa tampouco de ilusão, aquele lapso que nos parece estender-se entre o mundo e a eternidade, entre o tormento e a bem-aventurança, entre o bem e o mal.

  • 02 — sally rooney normal people
    • ⤹ ★★★☆☆

bom você é mais inteligente que eu. não se sinta mal, sou mais inteligente que todo mundo.

tinha a sensação de que sua vida real acontecia em outro lugar, bem distante dali, acontecia sem ela, e não sabia se um dia descobriria onde e se seria parte dela.

o resto do dia segue um padrão similar, com variações mínimas: às vezes abre as cortinas, às vezes não; outras vezes toma o café da manhã, ou talvez apenas café, que leva para tomar lá em cima, no quarto, para não ter que ver a família.

é fácil para eles ter opiniões e expressá-las com segurança. não se preocupam com a possibilidade de parecer ignorantes ou convencidos. não são pessoas burras, mas tampouco são tão mais inteligentes que ele. só se movem pelo mundo de um jeito diferente, e é provavel que ele nunca as entenda de verdade, e sabe que eles também jamais o entenderão ou ao menos tentarão tentender.

"o prazer de ser tocado pela arte" nessas palavras, parece quase sexual. e de certo modo, o que connell sente quando o sr. knightley beija a mão de emma não é totalmente assexual, embora sua relação com a sexualidade seja indireta. isso sugere a connell que a mesma imaginação que ele usa como leitor é também necessária para entender as pessoas de verdade, e para se tornar íntimo delas.

não é assim com outras pessoas.

não sei, ela diz. de certo modo, gosto da ideia de algo tão drástico acontecer comigo. eu gostaria de frustrar as expectativas dos outros.

mas posso decidir o que fazer com ele.

não sou religioso, mas às vezes acho que deus fez você pra mim.

na cama, à noite, imagina conjunturas em que está totalmente livre da mãe e do irmão, sem estar nem de bem nem de mal com eles, simplesmente como uma não participante neutra da vida deles. passou grande parte da infância e da adolescência criando esquemas complexos para se retirar do conflito familiar: ficando totalmente calada, mantendo o rosto e o corpo inexpressivos e imóveis, saindo silenciosamente da sala e indo para seu quarto, fechando a porta sem fazer barulho. trancando-se no banheiro. ficando longe de casa por um número indeterminado de horas, sentada sozinha no estacionamento da escola. nenhuma dessas estratégias jamais se provou um sucesso.

era cultura como representação de classe, literatura fetichizada por sua capacidade de levar pessoas instruídas em falsas jornadas emocionais para que depois se sintam superiores a pessoas sem intrução cujas jornadas emocionais gostaram de ler. ainda que o escritor fosse uma boa pessoa, e embora seu livro fosse realmente perspicaz, todos os livros eram, no final das contas, vendidos como símbolos de status, e todos os escritores participavam em alguma medida desse marketing.

era como sua vida tivesse acabado. quanto tempo durou aquela sensação? duas semanas, ou mais? depois sumiu, e um certo capítulo curto de sua juventude havia terminado, e ela havia sobrevivido, estava encerrado.

às vezes me sentia frustrada, mas não sozinha. nunca me sinto só quando estou com com você.

as pessoas podem mudar as outras de verdade.

  • 03 — irvine welsh skagboys
    • ⤹ ★★★★☆

eu precisava me recusar a estudar literatura pra conseguir preservar minha paixão por ela.

porque todo mundo precisa disso; todo mundo precisa de alguma coisa pra fazer e de uma história pra contar.

quem consegue resistir à perspectiva de amor e romance?

esse negócio de não parar quieto tá matando todo mundo, cara. essa competição toda. se o cara tem trabalho, fica estressado, se não tem, fica estressado também. todo mundo pensando só em si, aproveitando qualquer fraqueza pra pisar nos outros. não existe mais solidariedade, saca? não tem mais emprego nenhum, tudo sumiu, e ninguém tem mais nada pra fazer.

a vida só pode ser entendida olhando pra trás, mas precisa ser vivida pra frente.

escrevendo, dá pra usar a própria experiência desvinculando ela da nossa pessoa. cê consegue isolar algumas verdades. ao mesmo tempo, cê inventa outras. os episódios que cê inventa conseguem esclarecer e explicar tanto quanto os episódios que aconteceram de fato, e às vezes até mais.

"a ansiedade é a vertigem da liberdade". mas talvez a liberdade não seja pra mim.

é estranho a gente estar aqui num segundo e desaparecer no outro. daqui a algumas gerações ninguém vai dar a mínima. a gente vai ser só um bando de otário vestindo umas roupas engraçadas em fotografias desbotadas que algum descendente com muito tempo livre vai botar em cima de um aparado pra olhar de vez em quando. nenhum cara famoso vai se interessar em fazer um filme sobre as nossas vidas, né?

absorvendo isso, e contemplando a generosidade e o esplendor das estrelas, renton sente seu ânimo se elevando, como se tivesse sido recompensado com uma espécie de infância eterna; a ideia de que a terra inteira era uma herança a ser partilhada com cada espírito humano. em breve estaria novamente livre. lembra que, no fim da vida, nietzsche se deu conta de que não era possível simplesmente virar as costas para o niilismo; era necessário conviver com ele e, com sorte, sair do outro lado, deixando-o para trás.

jan 1 2022 ∞
sep 8 2022 +