agora me lembrei de que houve um tempo em que para me esquentar o espírito eu rezava: o movimento é espírito. a reza era um meio de mudamente e escondido de todos atingir-me a mim mesmo. quando rezava conseguia um oco de alma - e esse oco é o tudo que posso eu jamais ter. mais do que isso, nada. mas o vazio tem o valor e a semelhança do pleno. um meio de obter é não procurar, um meio de ter é o de não pedir e somente acreditar que o silêncio que eu creio em mim é resposta a meu - meu mistério.

eu não sou um intelectual, escrevo com o corpo. e o que escrevo é uma névoa úmida. as palavras são sons transfundidos de sombras que se entrecruzam desiguais, estalactites, renda, música transfigurada de órgão. mal ouso clamar palavras a essa rede vibrante e rica, mórbida e obscura tendo como contratom o baixo grosso da dor.

sim minha força está na solidão. não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. embora não aguente bem ouvir um assovio no escuro, e passos.

quanto à moça, ela vive num limbo impessoal, sem alcançar o pior nem melhor. ela somente vive, inspirando e expirando, inspirando e expirando.

enquanto isso - as constelações silenciosas e o espaço que é tempo que nada tem a ver com ela e conosco. pois assim se passavam os dias. o cantar do galo na aurora sanguinolenta dava um sentido fresco à sua vida murcha. havia de madrugada uma passarinha buliçosa na rua do acre: é que a vida brotava no chão, alegre por entre pedras.

(...) pois era muito impressionável e acreditava em tudo o que existia e no que não existia também. mas não sabia enfeitar a realidade. para ela a realidade era demais para ser acreditada. aliás a palavra "realidade" não lhe dizia nada. (...) rezava mas sem deus, ela não sabia quem era ele e portanto ele não existia. acabo de descobrir que para ela, fora deus, também a realidade era muito pouco. dava-se melhor com um irreal cotidiano, vivia em câmara leeeenta, lebre puuuulando no aaar sobre os ooooouteiros, o vago era o seu mundo terreste, o vago era o de dentro da natureza. e achava bom ficar triste. não desesperada, pois isso nunca ficara já que era tão modesta e simples mas aquela coisa indefinível como se ela fosse romântica. claro que era neurótica, não há sequer necessidade de dizer. era uma neurose que a sustentava.

mas não havia nela miséria humana. é que tinha em si mesma uma certa flor fresca. pois, por estranho que pareça ela acreditava. era apenas fina matéria orgânica. existia. só isto.

mar 27 2025 ∞
mar 28 2025 +