"Lila se afastara de mim definitivamente e — me pareceu de repente — a distância era de fato maior do que eu tinha imaginado. Não havia apenas se casado, não se limitaria a dormir com um homem todas as noites para cumprir as obrigações conjugais. Havia algo que eu não tinha entendido e que naquele momento me pareceu flagrante. Dobrando-se à evidência de que seu marido e Marcello Solara tinham selado sabe-se lá que acordo em torno de sua obra de infância, Lila admitira que gostava mais dele que de qualquer outra pessoa ou coisa. Se ela já se rendera, se já tinha digerido aquela afronta, a ligação com Stefano devia ser realmente forte. Ela o amava, o amava como as meninas das fotonovelas. Durante o resto da vida lhe sacrificaria todas as suas qualidades, e ele nem sequer se daria conta do sacrifício, teria em torno de si a riqueza de sentimentos, de inteligência e de fantasia que a caracterizava sem saber o que fazer com isso, simplesmente a esgotaria. Eu — pensei — não sou capaz de amar ninguém assim, nem mesmo Nino, só sei passar o tempo sobre os livros. E por uma fração de segundo me vi idêntica a uma tigela amassada com a qual minha irmã Elisa dera de comer a um gatinho até que ele desapareceu e a tigela ficou vazia e empoeirada no patamar da escada. Foi naquela altura que, com uma sensação de angústia, me convenci de ter avançado muito além do que devia. Preciso voltar atrás, disse a mim mesma, devo fazer como Carmela, Ada, Gigliola, a própria Lila. Aceitar o bairro, expulsar aquela arrogância, castigar a presunção, parar de humilhar quem me ama." (Ferrante, 2015, p. 17-18)
"Cada coisa do mundo estava em suspenso, puro risco, e quem não aceitava arriscar murchava num canto, sem intimidade com a vida. Compreendi de repente por que não conquistei Nino, por que Lila o conquistou. Eu não era capaz de me entregar a sentimentos verdadeiros. Não sabia me deixar arrastar além dos limites. Não possuía aquela potência emotiva que levara Lila a fazer de tudo para gozar aquele dia e aquela noite. Me mantinha recuada, à espera. Já ela tomava as coisas para si, as queria de verdade, se apaixonava, ia para o tudo ou nada e não temia o desprezo, o escárnio, as cusparadas, as surras. Ela enfim merecera Nino porque considerava que amá-lo já era tentar conquistá-lo, e não esperar que ele a quisesse." (Ferrante, 2015, p. 288-289)