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tw: luto maternal, pressão familiar.
Diplomacia foi assunto constante dentro da vida de Aoi Nakamura-Beaulieu muito antes daquela sequer entender significado da palavra. Crescida entre embaixadas, jantares formais e mudanças repentinas demais para que aprendesse a chamar algum lugar de casa, adaptação tornou-se parte inevitável de sua formação. Japão, França, Canadá e Coreia do Sul passaram por sua vida como paisagens através de janelas de carros em movimento, sempre belas, mas nunca permanentes.
Filha de diplomata japonês e de professora québécoise apaixonada por cinema, cresceu cercada de expectativas silenciosas junto da sensação constante de precisar corresponder àquilo que era esperado dela. Boa postura, boas notas, comportamento impecável. Aoi aprendeu cedo que existir de maneira correta parecia importar mais do que existir de maneira feliz.
Grande parte de suas melhores lembranças, entretanto, carregavam a presença da mãe. Filmes antigos preenchiam boa parte da infância das duas, sendo companhia frequente entre mudanças e diferenças culturais das quais ainda não sabia lidar. A mãe costumava dizer que algumas histórias existiam para fazer pessoas sentirem-se menos sozinhas no mundo. Após sua morte, ainda jovem, cinema acabou tornando-se uma das poucas coisas que Aoi sentia verdadeiramente pertencer a si. Refúgio silencioso dentre rotina regrada e futuro cuidadosamente planejado por terceiros. Mudança para Coreia do Sul durante adolescência acabou trazendo mais do que apenas outro país para acostumar-se.
Foi lá onde conheceu um garoto ligado à família que trabalhava para os Nakamura. Alguém completamente distante do tipo de vida ao qual estava habituada, mas que estranhamente fazia tudo parecer menos sufocante. Pela primeira vez, sentiu-se vista além da imagem cuidadosamente construída ao longo dos anos. Entre conversas tardias, drive-ins escondidos e pequenas fugas da rotina que vivia dentro de casa, Aoi apaixonou-se de maneira irreversível. Talvez pela primeira vez desejando permanecer em algum lugar não pela cidade em si, mas por alguém. Não durou.
Pouco antes de nova transferência diplomática da família, daquela vez para Montréal, um colar herdado de sua mãe desapareceu, situação envolvendo diretamente o garoto e familiares dele. Independente do que realmente aconteceu, dor daquilo foi suficiente para quebrar algo que até então parecia seguro dentro dela. Soma da traição junto da inevitabilidade de mais uma despedida fez com que terminasse relacionamento antes mesmo de partir.
Ainda assim, incapaz de ir embora levando silêncio consigo, escreveu carta confessando tudo aquilo que nunca conseguiu dizer diretamente. Pediu que entregassem para ele antes da mudança. Nunca recebeu resposta.
Anos em Montréal passaram-se entre tentativas frustradas de construir estabilidade própria e manutenção da imagem perfeita que o pai ainda esperava dela. Quando recebeu oportunidade de retornar para Coreia do Sul através de programa de mestrado, não demorou para aceitar. Aproveitou-se do fato de já falar coreano, do prestígio acadêmico da universidade e da confiança que o pai ainda depositava em seu futuro para prometer continuidade dentro da área diplomática e relações internacionais.
Não era verdade. Na realidade, Aoi retornou para estudar cinema.
Pela primeira vez escolhendo algo sem aprovação familiar envolvida. Mantendo distância segura da vida confortável e cuidadosamente planejada que deixara para trás, passou a sustentar-se sozinha enquanto escondia nova rotina do pai. Atualmente divide tempo entre estudos e trabalho como atendente no Let’s Get Inked, vivendo silenciosamente realidade completamente diferente daquela que ele acredita existir.
Talvez pela primeira vez tentando viver papel que tivesse sido escrito por si mesma.