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“a criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
age como um deus doente, mas como um deus.
porque embora afirme que existe o que não existe
sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
sabe que existir existe e não se explica,
sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
sabe que ser é estar em um ponto
só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.”

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primavera ୨୧ (a linguagem das flores...)
୨୧ (“alma primaveril.”)
୨୧ (nee, oshiete rilakkuma!)
bambi ୨୧

“perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos têm ofendido.”

“a vida vai sendo levada para longe, como um livro, que tristes querubins contemplam, resignados.

ah, mas as pálidas imagens ainda resistem: saem de seus primitivos lugares, aparecem onde não as esperávamos, desdobram-se de outras figuras que nos apresentam, acordam as primeiras experiências, as indeléveis curiosidades do nosso amanhecer no mundo.

eis as velhinhas, as dos doces olhos, cheios de coisas sábias, – as que nos ensinaram, quase sem palavras, só com as minuciosas rugas de seu rosto, com as grossas veias de suas mãos, quase paradas.

a doçura de viver está nas jovens sorridentes que oscilam nos balanços embaixo das árvores: olhar para os seus longos vestidos flutuantes; para as suas tranças com fitas; para os seus olhos, rápidos como borboletas; para o seu riso encarnado... e as flores caem no seu regaço... e gritam de susto, quando vão para longe, pelo ar... e o sol enrola fios dourados nos seus braços, e o vento mostra a borla de seda de seus finos sapatos.

a bondade está ali, – detrás daquela porta que se abre em silêncio, na sala onde a mesa está sempre posta, – com duas mãos que caminham, servindo eternamente a fruta, o leite, o pão. inutilmente o relógio marca o dia e a noite, pois a vida é sem fim. ninguém estremece. ninguém pensa nas horas muito a sério. todos se sucedem, todos se lembram uns dos outros, todos estão ali à espera dos que chegam. para socorrer. mesmo que fosse um inimigo, Senhor!

a frivolidade mira-se em altos espelhos, provando seus grandes chapéus, envolvendo-se em rendas e plumas. leva no lábio uma breve canção, quase perceptível: pouco maior que um alfinete, pouco menor que um botão de rosa. e, em redor, há muitos frascos de perfume, que fazem voar pela casa toda jardins aéreos de violetas e gardênias.

nas pedras das igrejas sentam-se os eternos mendigos: caminhantes de séculos, com suas pernas inchadas, seus trapos, e as mãos em concha, cinzentas e calcáreas, – vindas de que mar? de que lágrimas?

em câmaras mortuárias, entre panos roxos, estão chorando por donzelinhas que cintilam entre luzes e sedas, com seu rosto de camélia esquecido de acordar.

e como deslizam os fátuos, pelos salões repletos! oh, estes lustres, estes tapetes, estas coleções preciosas... por entre as belas coisas, deslizam, desatentos, com a biqueira do sapato reluzente e o sorriso sem direção, à espera do momento de murmurarem uma frase dúbia, sobre esvoaçantes valsas. {...}

“this is what you shall do:

love the earth and sun and the animals,

despise riches, give alms to everyone that asks,

stand up for the stupid and crazy,

devote your income and labors to others,

hate tyrants, argue not concerning God,

have patience and indulgence toward the people,

take off your hat to nothing known or unknown,

or to any man or number of men,

go freely with powerful uneducated persons,

and with the young and with the mothers of families,

read these leaves in the open air,

every season of every year of your life,

reexamine all you have been told,

at school at church or in any book,

dismiss whatever insults your own soul,

and your very flesh shall be a great poem,

and have the richest fluency not only in its words,

but in the silent lines of its lips and face,

and between the lashes of your eyes,

and in every motion and joint of your body.”

do prefácio de leaves of grass, walt whitman

“o bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar no mundo.

o bobo é capaz de ficar sentado, quase sem se mexer por duas horas. se perguntando por que não faz alguma coisa, responde: ‘estou fazendo. estou pensando.’

ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.

o bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem.

os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os veem como simples pessoas humanas.

o bobo ganha liberdade e sabedoria para viver.

o bobo nunca parece ter tido vez. no entanto, muitas vezes, o bobo é um dostoiévski.

há desvantagem, obviamente. uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a gávea onde é fresco. vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. resultado: não funciona. chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro.

mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo. enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado.

o esperto vence com úlcera no estômago. o bobo nem nota que venceu.

aviso: não confundir bobos com burros.

desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. é uma das tristezas que o bobo não prevê. césar terminou dizendo a célebre frase: ‘até tu, brutus?’

bobo não reclama. em compensação, como exclama!

os bobos, com suas palhaçadas, devem estar todos no céu.

se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

o bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.

ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. por isso é que os espertos não conseguem passar por bobos.

os espertos ganham dos outros. em compensação os bobos ganham vida.

bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. aliás não se importam que saibam que eles sabem.

há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). minas gerais, por exemplo, facilita ser bobo. ah, quantos perdem por não nascer em minas!

bobo é chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.

é quase impossível evitar excesso de amor que um bobo provoca. é que só o bobo é capaz de excesso de amor. e só o amor faz o bobo.”

das vantagens de ser bobo, clarice lispector

{...} acertaremos os nossos relógios pela chegada dos modestos pais de família que vêm de tão longe – oh, de que ignotos mundos chegam os pais de família...? – com seus embrulhos no gancho do dedo, e seus jornais embaixo do braço e, às costas, a fadiga de um dia inteiro de trabalho monótono: ‘já são sete horas, seu jaime?’ (e as crianças farejam os embrulhos, como gatos, como cachorrinhos: ‘café!’ ‘queijo!’ ‘sabonete!’ – e como são felizes as crianças, quando os pais chegam de tão longe, com os embrulhos pendurados nos dedos!...)

nos caramanchões que o luar vagamente desvenda, acham-se os noivos inacreditáveis, falando como personagens de romance. esses não são os que amanhã veremos casados: são os que vivem apenas o episódio de noivos, com luares, caramanchões, serenatas, insônias, desmaios, pianos cheios de valsas, cartas cor de ametista, que um dia ficam sem resposta, e pelas quais se empalidece e morre.

mas há também os noivos em suas carruagens, com salvas para as alianças, em almofadas de veludo; crianças que levantam a cauda do vestido branco de pálidas moças por muitos anos inclinadas a bordar monogramas em lençóis e fronhas de linho...

as professoras continuam a limpar o bico da pena em flanelas verdes. ‘como se chama o maior rio do mundo?’ (como se chamará? estamos procurando pelas paredes, pela janela aberta, lá pelo céu azul, com muitos anjos invisíveis... se os anjos sentassem nos bancos da sala, e ajudassem a escrever tudo certo, nas linhas azuis do papel!...)

embora os anjos não digam nada, as meninas passarão a tarde a cantar na igreja cheia de nardos: até o sol não atravessar mais o vitral que clareia a nave com o jorro do seu caleidoscópio. as beatas, cheirando a cera e alfazema, distribuem santos, medalhas, fitas, livros, indulgências e até confeitos. nós pensávamos que elas faziam parte das alfaias, e desejávamos, às vezes, ter aquele cheiro, e até os olhos assim tortos, mas ficar para sempre ali, a ouvir como ressoa a palavra mais breve naquelas colunas, até o coro, até o sino...

– és cristão?

– sim, sou cristão, pela graça de Deus...

os vendedores de doce desaparecem pelas esquinas, soprando uma gaita de folha. o instinto bucólico subitamente acorda e sofre. e segue de longe aquele som (oh! que árvores, que águas, que sombras de pastores, onde, quando...?) e deixa-se esmagar pelas rodas dos carros, nas ruas de pedra, enquanto leves campainhas oscilam e esmorecem no crepúsculo do arrabalde.

as crianças patinam nas praças. os estudantes fazem vaidosos pescoços adolescentes à porta dos cinemas. dizem assim: ‘contra fatos, não há argumentos...’ (coisas que aprenderam na escola...) perguntam para as meninas: ‘que foi que nasceu primeiro, a galinha ou o ovo?’ (e todos acham que já estão namorando!...)

os cocheiros dos carros fúnebres voltam sozinhos com o seu cavalo. e ambos parecem fantasmas. e é fantasma também o chicote que de vez em quando estala na tarde solitária.

mas nós estávamos pulando corda, e não morreríamos nunca. depois, aproveitávamos a lua, para cantarmos, com certo medo dos muros e das esquinas:

‘fui passear no jardim das flores,

giroflê, giroflá...’

mais tarde, porém, fechávamos os cortinados, porque havia muitos mosquitos, na noite morna. e, se os cães uivassem, a criada virava o chinelo embaixo da cama, e dormia em paz.”

de giroflê, giroflá, cecília meireles

may 2 2026 ∞
may 2 2026 +