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"repeti: a morte é um exagero. leva demasiado. deixa muito pouco."
"começaram a dizer as irmãs mortas. a mais morta e a menos morta. obrigada a andar cheia de almas, eu era um fantasma. o einar tinha razão. as nossas pessoas olhavam-me sem saber se viraria santa ou demónio. os santos aparecem, os demónios assombram."
"o inferno não são os outros, pequena halla. eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. a humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. perece como uma coisa qualquer."
"sobre beleza o meu pai também explicava: só existe a beleza que se diz. só existe a beleza se existir interlocutor. a beleza da lagoa é sempre alguém. porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. a beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro."
"as palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. usamo-las por pura ilusão. deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza."
"a esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança. é o que todos almejamos. que acreditem em nós. dizermos algo que se toma como verdadeiro porque o dizemos simplesmente."
"cada gesto seria como a moldura de um gesto secreto, invisível e imperceptível pela nossa imperfeição. de cada gesto se faria a nossa vida e a vida deles. se abríssemos a terra de Sigridur, ela estaria ali diminuindo e sem gestos. não valeria de nada que a víssemos daquela maneira. porque seria tão diferente do que fora e mais diferente de mim. talvez fosse isso o que significava a morte entre gémeas. deixávamos de ser gémeas e quebrava-se a telepática relação de que existira até então. a morte impedia a irmandade e as semelhanças."
"voltaríamos a ser gémeas mais tarde. quando também eu me bastasse para sempre às costas dos olhos. quando também me demitisse do poema."
"num certo sentido, todos os homens começaram por ser uma mulher. a mulher grávida não difere do seu filho senão já tarde. e o filho apenas muito depois se apercebe de algum desajuste entre o seu corpo e o que o circunda."
"deixei de apertar a moeda para dormir. havia comprado ela com a vida. limpa ou suja, toda eu me pertencia. talvez por isso o ódio deixasse de ter sentido. porque o que viria a ser dependia do que decidisse. os sentimentos educados, lembrei, os sentimentos educados fazem caber em outras classificações o que nos frustra ou irrita, o que nos agride e mesmo o que nos pode combater até à morte."
"a vida era dos que sobravam. em sobrar estava a oportunidade de prosseguir e de alguma vez ser feliz."
"ia ser muito bom se, ao menos em algumas ocasiões, tivéssemos um pássaro em troca do rabo, um pássaro em troca do estômago, um pássaro em troca do coração. quando nos fosse melhor, mais conveniente, daríamos por um pássaro o embaraço, a fome, o desgosto ou o medo. talvez, por embaraço ou sonho, puséssemos às vezes o pássaro a voar."
"a Sigridur, quando muito pequena, confundia o ontem, o hoje e o amanhã. dizia: amanhã foi muito bonito. o meu pai achava que era uma forma de ter visões. a Sigridur só o dizia quando se referia a coisas positivas, alegrias e contentamentos que recolhia. era uma forma de prever que o dia seguinte seria tão bom quanto o anterior. como se fosse uma capacidade de sonhar."
"queria proteger contra o esquecimento. a maior vulnerabilidade do humano, a contingência de não lembrar e de não ser lembrado."
"pudesse esse ser o destino de cada um, amadurecer assim o coração. de percussão a instrumento de sopro. ensaiar uma melodia até o fim. ter uma melodia por identidade e deixá-la a alguém que a aprendesse. quando não existíssemos, estaríamos suficientemente no som. bastaria o som para impedir que a morte fosse tão exagerada. talvez quem aprendesse a canção pudesse também guardar-nos as paixões. pousá-las ao pé de si. dizer: esta ocarina é bonita. a morte seria só bonita. uma coisa de ouvir, contra o silêncio insuportável."