|
bookmarks:
|
| main | ongoing | archive | private |
"Nós, os adultos, formamos uma espécie de complô. Entendemos do que se trata. Mas e as crianças? Depois da guerra, meus pais me explicaram de alguma forma, mas eu não consigo explicar para minha filha. Encontrar palavras. Gostamos cada vez menos da guerra, é cada vez mais difícil encontrar uma justificativa para ela. Para nós já é apenas uma matança. Ao menos para mim."
"Essa lógica 'feminina' deixou meus amigos baratinados (ao contrário das minhas amigas). De novo, escuto o argumento 'masculino':'Você não esteve na guerra'. Talvez isso seja bom: não conheço a paixão do ódio, tenho uma visão normal. Não militar, não masculina."
"No centro, sempre o fato de não querer e não aguentar morrer. E é ainda mais insuportável e angustiante matar, porque a mulher dá a vida. Presenteia. Carrega-a por muito tempo dentro de si, cria. Entendi que para as mulheres é mais difícil matar."
"E não foi de uma vez... Não foi de uma vez que conseguimos. Isso não era coisa de mulher: odiar e matar. Não era nosso... Era preciso se convencer. Se persuadir."
"Agora moro na Crimeia... Estamos cobertos de flores, mas todo dia olho para o mar pela janela e morro de dor, até hoje não tenho um rosto de mulher. Choro com frequência, passo os dias entre gemidos. Entre minhas lembranças..."
"Minha sobrinha de cinco anos - ela escutava nossas conversas - perguntou 'Tia Mánia, o que vai sobrar de mim quando eu queimar? Só as botinhas...'. Era esse tipo de coisa que nossas crianças perguntavam..."
"Lembro de uma... Uma jovem, nossa vizinha... Ela admitiu para mim, sinceramentr:'Eu amo a vida. Quero passar pó de arroz, me pintar, não quero morrer'. Não conheci mais ninguém. Talvez essas pessoas ficassem caladas, guardassem segredo. Não sei como lhe responder..."
"É difícil renunciar imediatamente à vida como era até então. Não é só o coração; todo o organismo opõe resistência. Eu me lembro que saí da loja correndo feliz com aqueles sapatinhos. Entusiasmada. E por todo lado havia fumaça... Estrondos... Eu já estava na guerra, mas ainda não queria pensar na guerra. Não acreditava."
"Parecia que na Terra ia ter paz para sempre, que ninguém nunca mais ia querer entrar em guerra, que todos os orjéteis deviam ser destruídos. Para que serviriam? Estávamos cansados de odiar. Cansados de atirar."
"Com a guerra, as palavras e os sons mudaram... Guerra... Isso estava sempre por perto. Se você dizia 'mamãe', já era uma palavra totalmente diferente, se dizia 'casa', era uma palavra totalmente diferente. Algo foi acrescentando a elas. As palavras carregavam mais amor, mais medo. Algo mais..."
"Já não eram mais inimigos, e sim pessoas, só dois feridos deitados lado a lado. Entre eles surgiu algo humano. Mais de uma vez observei com que rapidez isso acontecia..."
"Eu me lembro dos sos da guerra. Ao seu redor tudo troveja, retine e treme por causa do fogo... A alma de uma pessoa envelhece durante a guerra. Depois da guerra, nunca mais fui jovem... Isso é o mais importante. É o que eu acho..."
"Todas queriam ir para casa, mas tinham medo de voltar. Ninguém sabia quem estava nos esperando..."
"Achava qye morrer era como voar para algum lugar. Uma noite falamos sobre a morte, mas foi só uma vez. Tínhamos medo de proferir essa palavra..."
"Será que encontro as palavras? Sobre como eu atirava eu posso contar. Sobre como chorava, não. Isso continuará não dito. Sei de uma coisa: na guerra, o ser humano se torna terrível e inconcebível. Como entendê-lo?"
"Você é escritora. Invente algo você mesma. Algo bonito. Sem piolhos nem sujeira, sem vômito... Sem cheiro de vodca e sangue... Que não seja tão terrível quanto a vida..."
"Não tive filhos com ele. Nossa casa foi reduzida a cinzas. Até as fotografias foram perdidas. Não ficou nada. Se eu o levar para a nossa terra, restará ao menos o túmulo. Eu vou poder voltar para lá depois da guerra."
"Acho que se eu não tivesse me apaixonado na guerra, não teria sobrevivido. O amor me salvou. Ele me salvou..."
"Foi só ela dizer:'Vou lamentar por todos vocês' e 'Meus queridinhos' que todos os homens começaram a chorar alto [...] Isso me deixou estupefata, e até agora penso nisso, na grandeza do coração dessa mãe. Em um momento de dor tão imensa, quando estavam enterrando seu filho, ela ainda teve coração para chorar pelos filhos dos outros... Chorar como se fossem seus..."
"Vou dizer o seguinte: sem ser mulher não dá para sobreviver na guerra. Nunca tive inveja dos homens. Nem na infância, nem na juventude. Nem na guerra. Sempre fui feliz por ser mulher."