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"... mas tudo o que a velha lhe dizia de concreto, directo nos olhos, como se o fizesse por força maior, era que havia uma morte para cada um. alinhada como em fileiras do exército, aprumada em grande brio para vir colher quem lhe competia no momento certo. a morte era, afinal, a mais organizada das instituições. cheia de afazeres e detalhes, mas muito competente e certeira."
"... muito do que não existe é do mais importante da vida, não despreze nada, senhor silva, agarre-se a uma fantasia se for boa, que a realidade é bem feita desse momentos mais espertos de lhe fugirmos de vez em quando."
"mas não é possível deixar de ter conversas comunistas enquanto não se largar a merda das ideias do capitalismo de circo que está montando. um capitalismo de especulação no qual o trabalho não corresponde a riqueza e já nem a mérito, apenas a um fardo do qual há quem não se consiga livrar."
"à revelia do catolicismo, eu preferia abdicar de um filho que não conhecera para continuar partilhando a minha vida e crescendo como indivíduo ao lado da mulher que trazia a definição de todas a incompletudes do meu ser e as colmatava."
"progressivamente, como se a glória da vida se consumasse na maior das humilhações. observávamos os outros velhos e não sabíamos muito sobre as suas experiências. mas víamos-lhes os rostos e estes espelhavam as mesmas dores que os nossos."
"depois confessei-lhe, precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia. este resto de vida, américo, que eu julguei ser um excesso, uma aberração, deu-me estes amigos."
"e eu que nunca percebi a amizade, nunca esperei nada da solidariedade, apenas da contingência da coabitação, um certo ir obedecendo, um ser carneiro. eu precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de amizade."
"sabes que os peixes têm uma memória de segundos. aqueles peixes bonitos que vês dentro dos aquários pequenos, sabes que têm uma memória de segundos, três segundos, assim. é por isso que não ficam loucos dentro daqueles aquários sem espaço, porque a cada três segundos estão como num lugar que nunca viram e podem explorar. devíamos ser assim, a cada três segundos ficávamos impressionados com a mais pequena manifestação de vida, porque a mais ridícula coisa na primeira imagem seria uma explosão fulgurante da percepção de estar vivo."
"compreendes. a cada três segundos experimentávamos a poderosa sensação de vivermos, sem importância para mais nada, apenas o assombro da constatação."
"nunca teria percebido a vulnerabilidade a que um homem chega perante o outro. nunca teria percebido como um estranho nos pode pertencer, fazendo-nos falta. não era nada esperada aquela constatação de que a família também vinha de fora do sangue, de fora do amor ou que o amor podia ser outra coisa, como uma energia entre pessoas, indistintamente, um respeito e um cuidado pelas pessoas todas."
"vi-o rasgar em ínfimos pedaços cada carta, inviabilizando para sempre a possibilidade da sua leitura. perguntava-me por que não deixar que ficassem. seriam uma história bonita no feliz idade. e eu respondia que não, não o queria, que as histórias bonitas aconteciam por acaso, e eu acabara de aprender que a vida tem de ser mais à deriva, mais ao acaso, porque quem se guarda de tudo foge de tudo."