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"Seja como for, tenho quarenta e três anos e me parece vergonhoso recorrer a subterfúgios infantis para escrever num caderno. Por isso, é absolutamente necessário que eu confesse a Michele e aos meninos a existência desse diário e afirme meu direito de me fechar num aposento para escrever quando tiver vontade."
"Sinto tudo em mim confusamente e não posso falar disso com minha mãe nem com minha filha, porque nenhuma delas compreenderia. Pertencem a dois mundos diferentes: um que acabou, junto com aquele tempo, e outro que nasceu dele. E em mim esses dois mundos colidem, fazendo-me gemer. Talvez seja por isso que muitas vezes me sinto desprovida de consistência. Talvez eu seja somente essa passagem, essa colisão."
"Aprender a compreender as coisas mínimas que acontecem todos os dias talvez seja aprender a compreender realmente o significado mais recôndito da vida."
"Devo reconhecer que a determinação com a qual me defendo de qualquer possibilidade de repousar talvez não passe de medo de perder essa única fonte de felicidade que é o cansaço."
"Talvez existam pessoas que, conhecendo-se, conseguem se tornar melhores; eu, porém, quanto mais me conheço, mais me perco."
"A filha é para a mãe ao mesmo tempo seu duplo e uma outra, ao mesmo tempo a mãe a adora imperiosamente e lhe é hostil; impõe à criança seu próprio destino: é uma maneira de reivindicar orgulhosamente sua própria feminilidade e também uma maneira de se vingar desta."
"Nunca poderia acreditar que tudo o que me acontecesse ao longo do dia merecesse ser anotado. Minha vida sempre me pareceu meio insignificante, sem acontecimentos notáveis além do casamento e do nascimento das crianças. Mas, desde que, por acaso, comecei a manter um diário, percebo que uma palavra, um tom, podem ser tão importantes, ou até, quanto os fatos que estamos acostumados a considerar como tais."
"Se dissesse que estou pensando em um problema moral, ou religioso, ou político, sei lá, eles começariam a rir, caçoando afetuosamente de mim, como na noite em que afirmei meu direito a ter um diário."
"Agora, contudo, parece-me às vezes estar ligada a todos sem pertencer a ninguém. Tenho a impressão de que uma mulher deve sempre pertencer a alguém para ser feliz."
"Comecei a chorar e ele me consolava. 'Não faça isso, mamãe'. Ouvindo-me chamar assim tinha, ao contrário, mais vontade de chorar; pois para ele, já desde alguns anos, represento apenas essa figura que agora está naufragando e me arrasta junto."
"Em suma, duvido que tudo o que possuímos, e que nossos pais possuíam antes de nós - tradições, linhagem, normas de honra -, ainda tenha valor, em quaisquer circunstâncias, diante do dinheiro. Contudo, mesmo duvidando, no fundo continuo acreditando em minhas convicções de outrora. Mas gostaria que Michele entendesse que, por causa dessas nossas dúvidas, Riccardo e Mirella talvez já não acreditem em nós."
"Sim, Michele era a única pessoa para a qual eu era Valeria. Para algumas amigas, ainda sou Pisani, a colega de escola; para outras sou a mulher de MIchele, a mãe de Riccardo e Mirella. Mas, para ele, desde quando nos conhecemos, eu tinha sido somente Valeria."
"O reconhecimento do meu cansaço os isenta de qualquer responsabilidade. Por essa razão, repetem com frequência, com um ar severo: 'Você deveria descansar', como se eu não o fizesse por capricho. Depois, na prática, assim que me veem sentada no meio deles lendo um jornal, logo me pedem 'Mamãe, já que você não tem nada para fazer, poderia cerzir o forro do meu paletó? Poderia passar a ferro minha calça?', e assim por diante."
"Garanto que não descansarei, visto que, se o fizesse, aos olhos de quem me rodeia aquele breve dia figuraria como um mês inteiro de repouso."
"No entanto, minha paz nasce justamente do cansaço que sinto quando me deito na cama, à noite. Nele encontro uma espécie de felicidade na qual me aplaco e adormeço. Devo reconhecer que a determinação com a qual me defendo de qualquer possibilidade de repousar talvez não passe de medo de perder essa única fonte de felicidade que é o cansaço."
"Agoram por trás de qualquer coisa que eu faça ou diga, existe a sombra deste caderno. Nunca poderia acreditar que tudo o que me acontece ao longo do dia merecesse ser notado. Minha vida sempre me pareceu meio insignificante, sem acontecimentos notáveis além do casamento e do nascimento das crianças. Mas desde que, por acaso, comecei a manter um diário, percebo que uma palavra, um tom, podem ser tão importantes, ou até mais, quanto os fatos que estamos habituados a considerar como tais."
"E isso porque, se os filhos podem confessar francamente que se entendiam com os pais, uma mãe nunca pode confessar que se entendia com os filhos sem parecer desnaturada."
"Nem mesmo agora, sozinha com o caderno, consigo compreender: este caderno, com suas páginas em branco, me atrai e ao mesmo tempo me perturba, como a rua."
"Ele jamais imaginaria que eu tenho um diário: para ele é mais fácil acreditar que eu obedeça a um sentimento incriminador, em vez de me reconhecer como capaz de pensar."
"Gostaria de lhe falar, de ser franca, mas uma coisa me retinha, praticamente me amordaçava: a desesperadora certeza de que já não bastavam as palavras para superar o silêncio que foi se acumulando entre nós, dia após dia, e que a esta altura é um obstáculo intransponível."
"Nunca tive ideias próprias: até hoje me apoiei numa moral aprendida quando criança ou naquilo que meu marido dizia. Agora, pareço não saber mais onde está o bem e onde está o mal, não consigo mais compreender os que me circundam e, por isso, aquilo que eu acreditava sólido em mim também perde a consistência."
"Queria que elas me julgassem diferentemente, hoje, e quem sabe, me temessem um pouco como uma mulher amada intensamente por alguém a quem ela pode impor seus desejos, ainda que iníquos."
"'Mirella nunca poderá ser muito feliz, senhora; é inteligente demais'. Eu sorri, dizendo: 'Todos são inteligentes aos vinte anos, com o tempo é que fica cada vez mais difícil. Mas, em compensação, talvez se aprenda a ser feliz."
"Também parei e comprei um buquê de calêndulas. 'Aos domingos é bom ter flor na mesa', me disse a florista, 'os homens notam.' Sorri, concordando, mas na verdade ao comprar aquelas flores eu não pensava em Michele ou Riccardo, que no entanto, muito as aprecia; comprava para mim, para segurá-las enquanto caminhava."
"Com frequência, diante do mau humor dos homens, me pergunto o que eles fariam se, além do simples trabalho de escritório, tivessem, como toda mulher, muitos problemas diferentes para enfrentar e resolver."
"'É necessário muito tempo para o amor', Clara dizia, 'porque na verdade o amor não existe: é preciso inventá-lo a cada dia, a cada momento, e estar sempre à altura da própria invenção. É difícil...', ela concluiu com um sorriso cínico e forçado."
"Com frequência sinto o desejo de trocar confidências com uma pessoa viva, e não só com este caderno. Mas nunca pude; mais forte que o desejo de me abrir era o temor de destruir algo que fui construindo dia após dia, em vinte anos, e que é o único bem que possuo."
"E também puvi de Clara que o amor deve ser inventado dia após dia. Não sei o que isso significa na prática, mas intuo que nunca soube inventá-lo."
"Enquanto me despia, me olhava no espelho; procurava me ver velha, humilhada, inclusive quanto ao aspecto exterior, e não conseguia. Pelo contrário, voltei a chorar porque me via jovem..."
"Vejo as páginas em branco, repletas de linhas paralelas, prontas para acolher a crônica de meus dias futuros, e mesmo antes de vivÊ-los já fico perturbada. Sei que minhas reações aos fatos que anoto em detalhes me levam a me conhecer mais intimamente a cada dia. Talvez existam pessoas que, conhecendo-se, conseguem se tornar melhores; eu, porém, quanto mais me conheço, mais me perco."
"Se assim for, talvez não devêssemos tentar conhecer bem a vida; do contrário, no esforço de compreendê-la e vivê-la adequadamente, acabmos por não vivê-la de maneira alguma."
"Sinto tudo em mim confusamente e não posso falar disso com minha mãe nem com minha filha, porque nenhuma delas compreenderia. Pertencem a dois mundos diferentes: um que acabou, junto com aquele tempo, e o outro que nasceu dele. E em mim esses dois mundos colidem, fazendo-me gemer. Talvez seja por isso que muitas vezes me sinto desprovida de consistência. Talvez eu seja somente essa passagem, essa colisão."
"Diante dessas páginas, sinto medo: todos os meus sentimentos, assim, desentranhados, apodrecem, fazem-se veneno, e tenho a consciência de me tornar ré quanto mais tento ser juíza. Devo destruir o caderno, destruir o diabo que se esconde nele entre uma página e outra, como entre as horas da vida."