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"Olharíamos nos seus olhos ali guardados em nitrato de prata e conversaríamos desassombrados com essa criança pela qual, de outro modo, estaremos sempre à procura."
"Estaremos sempre à procura das nossas grandes crianças. Essas que começámos por ser e que se tornam paulatinamente inacessíveis, como irreais e até proibidas. Crianças que caducaram, partiram, tantas por ofensa, tantas apenas por esquecimento. Dizíamos que deixarmos de saber delas é pousar o presente e ensaiar erguer o futuro, no amplo vazio. A criança que não regressa é uma falta de saúde do tempo. Uma enfermidade que aguarda de qualquer maneira."
"A infância, para mim, significa Paços de Ferreira. Ficou perfeitamente delimitada por esses anos em que ali vivemos, de 1974 a 1981, o tamanho perfeito de uma memória encantada e de sobressalto. Guardarei para a vida inteira a convicção de que volto àquela terra como se voltando a mim mesmo. Completando pequenas experiências, ou evidências, que são sobretudo identidade. Uma nostalgia impossível de largar. Por ali, mais forte do que eu possa querer racionalizar, haveria de sobrar a certeza de que existir é pura maravilha. Com seu inesperado e tanto susto, a vida é a oportunidade da maravilha."
"Batia-se nas crianças para castigá-las da infância e urgir que fossem adultas."
"E as folhas de papel, tão planas e aparentemente vazias, adquiriam fundura, uma imensidão inesperada, porque, se eu soubesse escrever pirilampo, para sempre um pirilampo estaria ali, talvez até de cauda acesa, à minha espera. Meu. Sem ir embora. Eu disse: é a minha palavra preferida."
"Aceitei ir à escola, porque aceitei ser torturado em troca da ciência deslumbrante de aprender a guardar a fortuna das palavras."
"Nenuima terra de Paços de Ferreira seria maior do que aquilo que eu planeava guardar em cada palavra."
"Pensei que seria tão grande maravilha que Deus reparasse no Manuel. Pensei com muita força que era necessário que Deus reparasse no Manuel."
"Já entendera que nenhum poema seria mais parecido com um milagre quanto a alegria da minha mãe."
"O que queres ser quando fores grande. Feliz. Já tinha querido ser bombeiro, polícia, santo, padeiro e professor. Subitamente, parecia-me a felicidade melhor do que uma profissão. Ser, de todo o modo, é bem distinto de fazer."
"Quando soubemos da sua morte, eu senti que se descontava um lugar no mapa. Não apenas alguém, mas um lugar para onde ninguém mais poderia regressar. Como se a França inteira fosse terminada, a Póvoa de Varzim ou, ao menos, a casa de São Cristóvão de Selho. Nos novos mapas, alguém apagaria o nome Guilhermina, e já haveria modo de se seguir estrada alguma que levasse até ela e trouxesse desde ali para o resto do mundo alguém sempre a nascer."
"Eu acreditava em Deus, porque estava grato e necessitava de ter alguma figura a quem corresponder nesse sentimento arrebatado que vinha da oportunidade de existir. Que, por muitos anos, na minha timidez, se resumia a assistir. Talvez não existisse. Talvez apenas assistisse. Era, contudo, o bastante para uma gratidão sem reservas."
"Ando, a vida inteira, sobretudo à caça de satisfação para uma angústia constante que se prende a tudo, a ter e não ter, sentir que nunca nada está completo, que nunca tempo algum é suficiente. Falta-me tempo, quero mais, e quero gente e quero corresponder, pertencer genuinamente a cada lugar e melhorar os lugares e melhorar tudo, e ser um pouco feliz no meio de tanta coisa, tanta coisa que eu não entendo, nao chego a conhecer, não sou sequer inteligente o bastante para as aventuras todas. E digo angústia porque fica no ar um lado mais existencial e filosófico do que a constatação sempre tão violenta da tristeza, alguma tristeza, e a vida faz-se de andar entre alguma tristeza e procurar saída."
"O importante era a expectativa de as palavras fazerem um milagre. Para mim, as palavras prometiam milagres, nunca pertenciam ao normal. Eram instrumentos de partida. Iniciavam deslocações e mudanças profundas. Talvez até nos impedissem o regresso, por maior esforço ou inteligência."
"Abri meu caderno como se preparasse a mesa para uma evocação. Era um lugar de pouso. Deus, os santos e os anjos poderiam descer sobre aquelas páginas e palavras para revelar como se mexeriam de um lado para o outro até oferecerem uma resposta. E essa resposta seria tão mais infinita quanto quase ilegível."
"Era um menino horizontal. O meu irmão horizontal. Estava ali deitado à espera que uma árvore grande nascesse e chegasse até o céu. Os meninos mortos, pensava eu, apareciam nas flores dos pessengueiros gigantes. Eu nunca vira um pessengueiro gigante, mas também nunca vira um menino morto, como nunca vira meu irmão. Ele já havia acabado anos antes do dia em que eu nasci. Ia brotar um pessegueiro do seu umbigo."
"Ninguém lhe fez uma fotogragia, ou todas as imagens foram destruídas para cuidar da minha mãe. A minha mãe reafirma que era o bebé mais bonito de todos os bebés do mundo. Uma beleza perfeita à qual não faltaria mais nada. Mas Deus teve pressa ou cobiça."
"Mas rezar, acreditava, era um ofício que, se faltasse, aumentaria o sofrimento de todos e nos condenaria à maior desgraça."
"Morrer-nos alguém são mil anos de leituras. Carregamos nossos mortos importantes como uma biblioteca de ciências cultas, uma infinidade de sabedorias que só se aprendem assim. Quem ainda não ama seus mortos não se educa de modo nenhum para este conhecimento específico. Não acede uma erudição natural. Se é uma sorte amar apenas os vivos, é também o lado exterior do mistério."
"Depois dos peixes, eu ensaiaria nascer pirilampos a partir de uma cova seca com bocadinhos de fogo. E crianças a partir de rebuçados amarelos. Eu haveria de saber nascer amigos também gratos que nunca fossem embora. Haveria de nunca mais permanecer sozinho e fazer muita conversa."
"Então, eu dizia que o meu irmão estava morto. Dizê-lo assim era como dizer que fazia certa coisa. Fazia isso: a sua morte. Estava ocupado com ela. Se eu caísse ao buraco e, ao invés do horror de partir uma perna, morresse, o Casimiro estaria algures para me levar e explicar o que fazer durante isso de estar morto. Seria meu amigo. Ensinar-me-ia tudo. Essa ideia não terminava o medo, mas começava a coragem."
"Pensei que a espiritualidade poderia ter mais corpo. Ser mais física. Que os pecados não podiam ser tantos. Seriam demasiados pecados para coisas tão naturais. Como se Deus inventasse a natureza e depois a considerasse errada. Como se Deus humilhasse a natureza."
"Como nos instantes em que caía e o menino horizontal deitava a mão sob o meu joelho, o menino horizontal poderia haver batido os meteoritos de cima de nossas cabeças. Os mortos podiam jogar à bola com pedras gigantes. As almas eram elásticas. A alma de Casimiro, pelo menos, ia de São Cristóvão de Selho, onde se sepultara, até Paços de Ferreira, onde vivíamos. Por ser tão extenso é que o seguíamos considerando da família. De outro modo, significaria que nos abandonara. E não era verdade. Jamais nos abandonou."
“Naquela altura, secretamente, sempre grato por assistir mais do que existir, eu acalentava o desejo de ganhar verdadeiramente vocação. Haveria de maturar para uma utilidade. Eu haveria de ser capaz de ajudar os que sofriam. Pouco ou muito, mudaria o mundo.”
“Subitamente, perguntou: tu, medricas, de que mais tens medo. E eu respondi: que a Marisol case e vá viver para as fotonovelas ou para a telenovelas. Que a deixemos de ver ao pé, porque temos de cuidar dela para não ser roubada e porque a bondade parece pouca coisa em troca. Isso não é medo, disse ela. É saudade. Haveria de sentir o mesmo pela Flor e pelo Marco. Pensei nisso.”
“Aberto o meu caderno de minhas palavras, além de Deus, os santos e os anjos, pousaríamos todos, sempre, para sempre. Juntos.”
“O meu poema, pensei, será a presença de tudo o que está longe. Ao ler o meu poema haverá nenhuma distância.”
“Nessa caixa guardei os lentos e tristes poemas. Tudo o que ela continha era ainda um reenvio à vila da minha infância. Um pacto de memória.”
“Queria ver se as palavras tornam capazes de acender como os pirilampos, nem que nos rabinhos pequenos das últimas letras. Como se pudessem acender as últimas letras e voar do papel para fora.”
“A timidez e um pasmo geral criavam no meu espírito solidão e sonho também. Era meu jeito o de fantasiar, nunca como quem acreditaria vir a ter uma boa vida, mas como quem inventava personagens maravilhosas, outras pessoas admitidas pela sorte para terem uma boa vida.”
“A vida inteira, acerca dessa felicidade, terei dúvidas de saber sentir.”
“Éramos menos, mas quem é menos também é normal. Porque o sofrimento não retira a natureza e não impede o dia seguinte.”
“Quando deitei e fiz minhas preces, senti que eu mesmo virara um louva-a-deus. Também eu poderia fazer a prece sem sentir nada. Talvez pior, acompanhava a prece de uma súbita raiva por Deus, por me haver humilhado e colocado em perigo num ambiente onde se esperaria encontrar pessoas mais bondosas, as que teriam por ofício conduzir os santos ao seu esplendor. O louva-a-deus reza sem compromisso. Foi como eu me senti. Que meu compromisso se havia suspendido.”
“Eu, por oposição, mantinha atenção a ideias menos concretas e desenvolvia costumes talvez infrutíferos para sondar segredos ao universo. Sentava-me na praia à espera de que alguma resposta viesse na maré. Queria poder escrever o que o mundo estivesse a dizer sem que ninguém se disponibilizasse para ouvir. Eram ainda minhas chantagens a Deus, que poderia escolher-me para a revelação do universo ou, o mais certo, humilhar-me com o sem idioma dos fenómenos.”
“Não entender também é fundamental para a paixão. Explícitas ficam as coisas terminadas. O que conserva vida e movimento guarda sua vocação para nenhuma definição rigorosa. O rigor é dos que escolhem detalhes, ao invés da amplitude desmesurada da realidade.”
“Mais tarde, logo depois, frustrada com minha contemplativa forma de adolescência, a Luz ofereceu-me um caderno onde anotara poemas que fora procurar em livros de algum lugar. Ofereceu-mo e desculpou-se. Julgou garantir minha felicidade daquele jeito, substituindo sua presença pela vastidão dos versos, que eu leria tantas vezes sem convicção de os acabar. Foi seu modo de me dar por vencido em favor da solidão. Um rapaz irresoluto, impossível de resolver.”