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"O fato de que a mulher negra era vítima de opressão sexista e racista era considerando insignificante, porque o sofrimento da mulher, por maior que fosse, não poderia preceder à dor dos homens."
"Minha experiência de vida me mostrou que as duas questões eram inseparáveis, que, no momento de meu nascimento, dois fatores determinaram meu destino, o fato de eu ter nascido negra e o fato de eu ter nascido mulher."
"Enquanto o sexismo institucionalizado era um sistema social que protegia a sexualidade dos homens negros, ele legitimava (socialmente) a exploração sexual das mulheres negras. A mulher escravizada vivia sempre atenta a sua vulnerabilidade sexual e em permanente medo de que qualquer homem, fosse ele branco ou negro, pudesse escolhê-la para assediá-la e vitimizá-la."
"Como a mulher foi designada criadora do pecado sexual, mulheres negras eram naturalmente vistas como a personificação do mal feminino e da luxúria. Eram rotuladas de Jezebel e de sedutoras, além de serem acisadas de desviar os homens brancos da pureza espiritual para o pecado."
"Era difícil para as abolicionistas debaterem sobre estupro de mulheres negras, por medo de ofender a plateia, então se concentravam no tema da prostituição. Mas o uso da palavra prostituição para descrever a massiva exploração sexual por homens brancos de escravizadas negras não só desviou a atenção da prevalência da investida sexual forçada, como também deu ainda mais credibilidade ao mito de que mulheres negras eram devassas por natureza, portanto, responsáveis pelo estupro."
"Estupro não era o único método usado para aterrorizar e desumanizar mulheres negras. As chibatadas sádicas no corpo nu das mulheres negras escravizadas eram outro método empregado para acabar com a dignidade delas. No mundo victoriano, onde mulheres brancas, seguindo a religião, cobriam cada parte do corpo, mulheres negras eram diariamente despidas e publicamente açoitadas."
"Exploração sexual em massa de mulheres negras escravizadas foi consequência direta da política sexual antimulher durante o período colonial nos Estados Unidos patriarcal. Como a mulher negra não era protegida nem por lei nem por opinião pública, ela era alvo fácil. Enquanto o racismo claramente foi o mal que decretou que pessoas negras seriam escravizadas, sexismo foi o que determinou que o destino da mulher negra seria mais pesado, mais brutal do que o do homem negro escravizado."
"O fato de que mulheres negras escravizadas eram forçadas a trabalhar como 'homem' e a existir independentemente da proteção e da provisão deles não levou ao desenvolvimento uma consciência feminista. Elas não defendiam equidade social entre os sexos. Em vez disso, carregavam um ressentimento amargo por não serem consideradas 'mulheres' na cultura dominante e, portanto, não receberem a consideração e os privilégios dados às mulheres brancas."
"Ela não destaca o fato de que um motivo importante para o estupro de mulheres negras jamais ter recebido a pouca atenção que o estupro de mulheres brancas recebe é o fato de o público branco sempre ter visto mulheres negras como permissivas em relação ao sexo, como disponíveis e ansiosas por receber violações sexuais de quaisquer homens, negros ou brancos."
"Garotas negras escravizadas foram ensinadas, assim como suas companheiras brancas, que virtude era a natureza espiritual ideal da mulher e virgindade, seu estado físico ideal, mas conhecimento da moral sexual aceitável não alterou a realidade de que não existia ordem social para protegê-la da exploração sexual."
"A mulher negra que pensava ser 'muito boa' para o trabalho doméstico ou outro tipo de prestação de serviço era, com frequência, ridicularizada por ser convencida. Mas todo mundo tinha empatia pelo homem negro desempregado que dizia não conseguir aceitar 'o homem' mandando nele."
"Eu, sem dúvida me lembro de homens negros de classe baixa em nosso bairro comentarem o fato de que alguns empregos não valiam a pena, porque levavam à perda da dignidade pessoal, enquanto faziam mulheres negras sentirem que, quando a sobrevivência era uma questão crucial, a dignidade pessoal deveria ser sacrificada."
"Assim como os brancos usaram, como meio de desvalorizar a mulheridade negra, o mito de que todas as mulheres negras eram sexualmente desinibidas, eles usaram o mito do matriarcado para imprimir na consciência de todos os estadunidenses de que as mulheres negras eram masculinizadas, castradoras e ameaçadoras."
"Não é possível haver liberdade para homens patriarcas de todas as raças enquanto eles apoiarem a subjugação de mulheres. O poder absoluto de patriarcas não é libertador. A natureza do fascismo é tal que controla, limita e restringe os líderes, tanto quanto as pessoas que os fascistas oprimem. Liberdade como igualdade social positiva, que garante a todos os seres humanos a oportunidade de determinar seu destino da maneira mais saudável e comunalmente produtiva, somente poderá ser totalmente real quando o nosso mundo não for mais racista ou sexista."
"Quando mulheres brancas reformistas, nos anos 1830, escolheram trabalhar para libertar os escravizados, elas estavam motivadas por sentimentos religiosos. Atacaram a escravidão, não o racismo. A base do ataque era reforma moral. O fato de não exigirem igualdade social para pessoas negras indica que permaneceram comprometidas com a supremacia racista branca, apesar do trabalho antiescravista."
"Uma estratégia semelhante tem sido usada como lavagem cerebral de mulheres negras. Colonizadores brancos incentivam mulheres negras, que são economicamente oprimidas e vítimas de sexismo e racismo, a acreditarem que são matriarcas, que exercem algum controle social e político sobre a vida deles."
"Sem dúvida, o falso sentimento de poder que mulheres negras são levadas a ter nos faz pensar que não precisamos de ativismos sociais, como um movimento de mulheres que nos libertaria da opressão sexista. A triste ironia é, obviamente, que mulheres negras são, com frequência, mais vitimadas pelo próprio sexismo que nos recusamos a identificar coletivamente como força opressora."
"Em uma nação imperialista racista como a nossa, é a raça dominante que se reserva o luxo de dispensar a identidade racial, enquanto a raça oprimida é diariamente lembrada de sua identidade racial. É a raça dominante que consegue fazer parecer que sua experiência é representativa."
"A ênfase de mulheres brancas em 'opressão comum', no apelo às mulheres negras para que se juntassem ao movimento, alienou ainda mais várias mulheres negras. Porque várias mulheres brancas do movimento eram patroas de empregadas domésticas não brancas e brancas, a retórica delas sobre opressão em comum era vivenciada por mulheres negras como uma violência, uma expressão da insensibilidade da mulher burguesa e falta de consciência da posição da mulher de classe baixa na sociedade."
"Sugerir que homens negros foram desumanizados apenas como resultado da incapacidade de serem patriarcas implica que a subjugação das mulheres negras era essencial para o desenvolvimento de um autoconceito positivo do homem gero, ideia que serviu apenas para apoiar uma ordem social sexista."
"É uma contradição que as mulheres brancas tenham estruturado um movimento de libertação das mulheres que é racista e exclui várias mulheres não brancas. No entanto, a existência dessa contradição não deveria levar qualquer mulher a ignorar as questões feministas. Com frequência, mulheres negras me pedem para explicar por que eu digo que sou feminista e, ao usar esse termo, aceito me aliar a um movimento que é racista. Digo, 'a pergunta que devemos fazer repetidas vezes é como as mulheres racistas podem dizer que são feministas'."