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"dizia-lhe que eles mesmos, mortos, se tornariam revelações profundas, absolutas aos seus próprios espíritos, e talvez a euforia com a leitura da morte o levasse ao suicídio."
"os vizinhos entristeceram-se, mas entediam que muito na cabeça do oleiro era de menino. o seu amor imaturo prosseguia. a morte era muito pouco para terminar um sentimento tão grande [...] a terra do oleiro parecia observada para sempre pela mulher. era uma mulher abundante. restava."
"a cegueira aumentava as ideias de menina matsu. aperfeiçoava-se nas preces, dizia que a oração era uma companhia porque julgava que as coisas do mundo se abeiravam, como se atendessem a um chamado. ainda que o fizesse em silêncio, a jovem entendia que as palavras lhe colocavam o mundo à mercê. para agradecer. era o que mais lhe importava. manifestar a gratidão."
"a menina, habitante sobretudo dos sonhos, disse: havíamos de ter um jardim seco. um de pedras que fizesse o ondulado do mar. tão bem alinhado que fosse um desenho perfeito por onde poderíamos percorrer os dedos. a criada perguntou: seco. a cega respondeu: teríamos sempre lágrimas para o molhar. e sorriu."
"podiam contestar a difícil verossimilhança dos relatos, podiam acrescentar dados que eles mesmos haviam escutado em descansos breves do trabalho, e podiam tão-só rir. estavam vivos e juntos, pensavam. estavam vivos e juntos. a felicidade poderia ser aquilo. matsu, por incapacidade de se conter, dizia isso mesmo: a felicidade está na atenção a um detalhe. como se o resto se ausentasse para admitir a força de um instante perfeito."
"o artesão apenas educava os materiais para uma vocação que eles detinham por natureza, ouvira do pai. o artesão era um cúmplice da natureza, um certo intérprete. como se avivasse a memória antiga à coisa inerte. o gesto precisava de ser único, sem repetição, para que a obra comparecesse na espontaneidade possível. os crisântemos, explicava o pai, devem nascer de verdade no calmo papel de arroz. mais do que pintar, os artesãos semeiam. declarava solenemente. semeia as flores no papel, filho. lavra.
"itaro pensava que o rosto da irmã era sem clausura. a cegueira largava-a na imensidão. uma coisa sem fim. o rosto de matsu era aberto. o rosto aberto."
"de algum modo, o afecto que a senhora kame lhe guardava impedia-a de verdadeiramente ficar sem ninguém. dizia para si mesma: amar é uma proibição de estar só. ainda que ausente, a menina era uma companhia impossível de se perder."
"o oleiro perdia perdão pelo susto aos aldeões. a sua vontade apenas queria cuidar do mundo. mas dormia apoquentado com solidão e o crescente tamanho do amor. o amor, na perda, era tentacular. uma criatura a expandir, gorda, gorda, gorda. até tudo em volta ser esse amor sem mais correspondência, sem companhia, sem cura. que humilhante a solidão do amante. o oleiro disse assim: que humilhante o coração que sobra. o amor deixado sozinho é uma condição doente."
"como se uma nuvem desmaiasse ou morresse de voar. quando se abateu sobre itaro, e sobre todo o campo em redor, esfumou. tornara-se nada. o único que se via eram as canas que o meu rapaz colhera a encalharem aqui e ali, nas pedras por onde a água corria. contava assim a mulher. saburo considerou que a mísera criada sofria de uma triste ignorância para amar."
"ver era um modo de ir embora ou de olhar para sempre. queria que fosse colheita. queria que as imagens se capturassem sem devolução, sem empréstimo, mas o exercício dos olhos era vazio. tinha nenhum recipiente, nenhuma reserva. sem tangibilidade, ver humilhava a memória, que nunca recuperaria a completude de coisa alguma. a memória erao resto de realidade. uma sobra que mutava para a ilusão com facilidade. tinha-se obcecado com a ideia de arrancar as imagens pelo pé igual se fazia às flores. arrancá-las pelo pé para enfeitar o dentro dos olhos. como se houvesse ali um compartimento infiniti para acomodar os céus inteiros e bichos, leques perfeitos e a transparência das águas."
"contar-se-ia para sempre que um homem fora condenado a meditar no fundo de um poço durante sete sóis e sete luas e que, apavorado com o escuro, se amigou do próprio medo. sentindo-lhe carinho."
"itaro comoveu-se. perguntou: e meu amigo. deixei cair o meu amigo. o monge respondeu: deixaste apenas cair o medo. que farei agora. quis saber. o velho homem lhe disse: contarás ainda mais belas mentiras sobre flores. contarás ainda mais belas mentiras sobre pássaros. o artesão respondeu: obrigado, venerável sábio. muito obrigado."
"ela sabia apenas da beleza das palavras porque era com elas que se explicava o mundo. chegava a gostar das coisas cujos nomes soassem bonitos. jukgava que os nomes acusavam a propriedade do que queriam significar, ainda que tantas vezes tocasse em coisas más, que a picavam, agrediam, agrediam, procuravam devorar ou adoeciam. ainda assim, guardava da beleza uma ideia sobretudo discursiva."
"no mais genuíno amor todas as pessoas se envergonham. a cega dizia. porque um sentimento tão profundo transcende a valentia. era como se declarava também. e ele, deitado, ao seu lado, sorria e ela, sem se cansar, sabia que ele sorria incapaz de conter a alegria de estarem juntos."
"o seu senhor lhe perguntava: que posso te oferecer. e ela respondia: um jardim seco. um que seja quieto, de pedra, por onde possa correr os dedos e sentir como imita as ondas do mar. e ele disse: que sabes do mar. ela respondeu: o que imagino. apenas o que imagino. e gosto."
"atendiam à cerimónia fúnebre. imediatamente olharam o espantalho vazio e sentiram que a senhora se fora embora novamente. mais do que nunca. a senhora fuyu morrera por completo."
"viam as chamas limpas da senhora fuyu, o fogo espiritual que a transportava de uma vez por todas para o lado imaterial e sumptuoso dos deuses. era uma celebração, afirmavam. o oleiro curava-se, a mulher libertava-se."
"seria uma fantasia, como num desejo, mas comparecia no imaculado leque o rosto ténue da menina cega, e quem houvesse de lhe sentir falta poderia enganar-se na companhia daquele objecto. a criada o abraçou. musumé, disse. onde estás. e sozinha acrescentou: no meu coração."
"os cegos imaterializavam-se. ficavam extensos. somavam ao total do japão, indistintos entre as evidências, como sabedorias aprofundando ou seres que viam pela boca. diziam, e o que diziam era outro tipo de olhar. o artesão ponderou que, afinal, algumas pessoas chegavam para lá do esticado dos braços, do esticado das pernas. eram pessoas sem tamanho. a escuridão levava aos tamanhos, imaginou que matsu lhe perguntava agora quanto mediam as árvores da digna floresta. e ele respondia: um milhão de corpos teus. e cada pássaro seria gigante como um milhão de meninas juntas. porque cada pássaro teria a medida de uma ideia. as ideias, irmã, são de extremidades indefinidas, a cada instante de expandem."
"a cegueira era, a cada instante, uma expansão."
"itaro decidiu que assim explicaria às pessoas: sou um homem que vê pela boca. e entendeu. ao invés de caçar as imagens, caçara ideias. haveriam de aumentar à força da liberdade."
"falaria de amor. diria: o que se opõe ao amor se afeiçoa à morte. o artesão haveria de mendigar por obrigação de alegria."