"Muito já se falou sobre Robert, e outras coisas ainda serão ditas. Os rapazes imitarão seu jeito de andar. As garotas usarão vestidos e chorarão por seus cabelos cacheados. Ele será condenado e adorado. Seus excessos serão malditos e romanceados. Por fim, descobrirão a verdade em seu trabalho, o corpo físico do artista. Isso não se afastará. Os homens não podem julgá-lo. Pois é a Deus que a arte canta, e afinal pertence a ele."

"A palavra por si mal dava conta de sua magnificência, nem continha a emoção que ele produzia. Sua visão gerou uma necessidade para a qual eu não tinha palavras, um desejo de falar do cisnem de dizer algo sobre sua brancura, a natureza explosiva de seu movimento e o lento bater de suas asas."

"Pusemos as melhores folhas no pão e comemos felizes. 'Um verdadeiro café da manhã de cadeia' falei. 'É, mas nós estamos livres'. E isso resumia tudo."

"Foi o verão que Coltrane morreu. O verão de 'The crystal ship'. Crianças com flores erguiam as mãos vazias e a China lançava sua bomba H. Jimi Hendrix punha fogo na guitarra em Monterey. A rádio AM tocava 'Ode to Billie Joe'. Havia rebeliões em Newark, Milwaukee e Detroit. Foi o verão de Elvira Madigan, o verão do amor. E nessa atmosfera mutante, inóspita, um encontro casual alterou o rumo da minha vida. Foi o verão em que conheci Robert Mapplethorpe."

"Contei isso, e ele respondeu que aquele desenho era um símbolo de seu próprio compromisso com a arte, feito no mesmo dia. Ele me deu o desenho sem hesitar e compreendi que naquele breve intervalo de tempo havíamos aberto mão de nossa solidão, substituindo-a pela confiança mútua."

"Estava muito ansioso para ver Tim Buckley. Mas quando voltou para casa estava mais entusiasmado com outra pessoa. 'Vi alguém que vai ser realmente grande', disse. Era Janis Joplin."

"Senti, ao ver Jim Morrisson, que eu podia fazer aquilo. Não sei dizer por que pensei nisso. Não havia nada na minha experiência que pudesse me fazer achar que isso algum dia seria possível, mas guardei essa opinião."

"Perdemos contato com Ed, mas uma década depois ele esteve comigo outra vez de modo inesperado. Quando me aproximeu do microfone com minha guitarra elétrica para cantar o verso de abertura, 'So you wanna be a rock and roll star', lembrei das palavras dele. Pequenas profecias."

"O menino que eu conhecera era tímido e pouco articulado. Gostava de ser pego, levado pela mão e de se entregar completamente a um novo mundo. Era másculo e protetor, mesmo sendo feminino e submisso. Meticuloso em seu modo de vestir e se portar, era também capaz de um caos assustador em seu trabalho. Seus mundos particulares eram solitários e perigosos, ansiosos por liberdade, êxtase e desprendimento."

"Estávamos nos desenvolvendo com necessidades diferentes. Eu precisava explorar o mundo para além de mim mesma e Robert precisava buscar dentro de si."

"Uma parte de mim queria simplesmente voltar, embora eu soubesse que não conseguiríamos regressar àquele lugar nunca mais, mas apenas ir e vir como as crianças no barqueiro, através do nosso rio de lágrimas. Eu queria muito viajar, ir a Paris, ao Egito, a Samarcanda, para longe dele, longe de nós dois."

"Ele também tinha uma trilha a seguir e não teria outra escolha senão me deixar para trás."

"Ambos descobríamos que queríamos demais. Só éramos capazes de doar a partir da perspectiva do quem éramos e do que cada um tinha a oferecer. Separados, fomos capazes de enxergar com mais clareza que um não queria mais ficar em o outro."

"'Ninguém vê as coisas como nós, Patti', ele disse outra vez. Sempre que dizia esse tipo de coisa, por um espaço mágico de tempo, era como se fôssemos as únicas pessoas no mundo."

"E no entanto se podia sentir uma vibração no ar, uma certa pressa. Tudo havia começado com a Lua, a Lua, inacessível poema. Agora os homens haviam andado sobre ela, pegada de borrachas em uma pérola dos deuses. Talvez uma consciência maior da passagem do tempo, o último verão da década. Às vezes, eu tinha vontade de simplesmente levantar a mão e parar tudo. Mas parar tudo o quê? Talvez apenas parar de crescer."

"A noite dos sapatos, como ficou conhecida entre nós, foi para Robert um sinal de que estávamos no caminho certo, mesmo com o cruzamento de tantos outros caminhos sobrepostos."

"Depois de um tempo, saí de lá e voltei para o nosso antigo quarto no Chelsea. Sentei ali e chorei, então lavei o rosto em nossa pequena pia. Foi a primeira e única vez que senti ter sacrificado alguma coisa minha por Robert."

"Acho que a necessidade de definir seus impulsos e confinar sua identidade em termos de sexualidade era algo estranho para ele."

"Minha imagem dele permanece intacta. Ele foi o artista da minha vida."

"Eu não era atriz; não seperava a vida da arte. Era a mesma em cena ou fora do palco."

"Precisávamos de tempo para descobrir o que tudo aquilo significava, como faríamos para nos ajustar e redefinir o modo de chamar nosso amor. Aprendi com ele que muitas vezes a contradição é o caminho mais claro para a verdade."

"Eu era supersticiosa. Era uma segunda-feira; eu havia nascido em uma segunda. Era um bom dia para chegar a Nova York. Ninguém estava me esperando. Tudo esperava por mim."

"Nós nos víamos como os Filhos da Liberdade com uma missão de preservar, proteger e projetar o espírito revolucionário do rock and roll... Nós também pegamos em armas, as armas da nossa geração, a guitarra elétrica e o microfone."

"Lenny me ensinou a tocar um mi, e, quando toquei a nota, declamei o verso: 'Jesus morreu pelos pecados de alguém, mas não pelos meus". Eu havia escrito esse verso alguns anos antes como uma declaração de existência, como um voto de responsabilidade pelas minhas próprias ações. Cristo era alguém contra quem valia a pena se rebelar, pois ele era a rebelião em pessoa."

"Nas cinco semanas seguintes, gravamos e mixamos meu primeiro álbum, Horses. Jimi Hendrix nunca mais voltou para criar sua nova linguagem musical, mas deixou para trás um estúdio que ressoava todas as suas esperanças do futuro da nossa voz cultural."

"Em 'Birdland', embarcamos com o jovem Peter Reich enquanto ele esperava que seu pai, Wilhelm Reich descesse do céu e o fizesse nascer. Em 'Break it up', Tom Verlaine e eu escrevemos um sonho em que Jim Morrisson, amarrado feito Prometeu, de repente se liberta. Em 'Land', imagens de meninos gays mescladas com cenários da morte de Hendrix. Em 'Elegie', lembrando de tudo, passado, presente, futuro, daqueles que perdemos, estávamos perdendo e acabaríamos perdendo."

"'Consegui'. 'Como você sabe?' 'Eu simplesmente sei'. Ele fez doze fotos naquele dia. Em poucos dias, me mostrou um contato. 'Essa aqui tem a mágica.', ele disse. Até hoje, quando olho para essa foto, nunca me vejo. Vejo nós dois."

"Mas Robert e eu exploramos a fronteira do nosso trabalho e criamos espaços um para o outro. Quando eu entrava em um palco do mundo sem ele, fechava os olhos e o imaginava tirando sua jaqueta de couro, entrando comigo na terra infinita das mil danças."

"Robert estava descaradamente orgulhoso do meu sucesso. O que ele queria para si mesmo, ele queria para nós dois. Exalou uma coluna perfeita de fumaça, e falou com um tom que só usava comigo - uma bronca perplexa - de admiração sem inveja, nossa linguagem de irmão e irmã. 'Patti', ele falou lentamente, 'você ficou famosa antes de mim.'

"Em Detroit, sentei no chão para escrever um poema para o Portfólio Y de Robert. Ele me dera um punhado de flores, um buquê de fotografia que preguei na parede. Escrevi sobre o processo de criação, sobre a varinha de radiestesia e a vogal esquecida. Retomei minha vida de cidadã. Ela me levou para longe do mundo que eu conhecera, mas Robert esteve o tempo inteiro na minha consciência; a estrela azul na constelação da minha cosmologia pessoal."

"'Você salvou meu dia, Patti.', ele disse ao desligar. Ainda posso ouvi-lo dizendo isso. Posso ouvi-lo até agora."

"A morte de Sam também lançou uma sombra sobre as esperanças de Robert quanto à sua própria recuperação. Para consolá-lo, escrevi a letra que Fred musicou de 'Paths that cross', uma espécie de canção sufi em memória de Sam. Embora Robert tenha ficado grato pela canção, eu sabia que um dia talvez usasse aquelas palavras para mim mesma. Caminhos que se cruzam voltarão a se cruzar."

"Ele trazia a morte dentro de si e eu trazia a vida. Ambos sabíamos disso, tenho certeza."

"Segurei Jesse em meus braços, e ela se ofereceu para ir com ele, sorrindo. 'Patti', ele disse, apertando o disparador. 'Ela é perfeita.' Foi a nossa última fotografia.

"Eu disse que ele estava sempre comigo, era parte de quem eu sou, assim como ainda é neste exato momento."

"Ele olhou para mim, com seu olhar de amor e censura. Meu amor por ele não podia salvá-lo. Seu amor pela vida não podia salvá-lo. Foi a primeira vez que entendi de verdade que ele ia morrer."

"A luz entrava pelas janelas sobre suas fotografias e o poema de nós dois juntos pela última vez. Robert morrendo: criando silêncio. Eu, destinada a viver, ouvindo atentamente a um silêncio que demoraria uma vida para expressar."

"Na distância ouvi alguém chamando, eram vozes das minhas crianças. Correram para mim. Nesse trecho fora do tempo, fiquei parada. De repente, eu o vi, seus olhos verdes, seus cachos castanhos. Ouvi a voz dele acima das gaivotas, a risada infantil e o rumor das onda. 'Sorria para mim, Patti, como eu estou sorrindo para você.'"

"Por que não consigo escrever algo que faça despertar os mortos? Essa busca é o que arde mais fundo. Superei a perda de sua escrivaninha e da cadeira, mas nunca o desejo de produzir uma corrente de palavras mais valiosa que as esmeraldas de Cortés. Mas tenho um cacho de seu cabelo, um punhado de suas cinzas, uma caixa com suas cartas, um pandeiro de pele de cabra. E nas dobras do desbotado lenço roxo um colar, com duas placas roxas escritas em árabe, enfileirando suas contas prateadas e pretas, que me deu o menino que amava Michelangelo."

"Dissemos adeus e saí do quarto dele. Mas algo me atraiu de volta. Ele caíra em um sono leve. Fiquei ali parada olhando para ele. Pacífico, como uma criança antiga. Ele abriu os olhos e sorriu. 'Já voltou?' E tornou a dormir. E assim, minha última imagem foi a primeira. Um jovem adormecido sob um manto de luz, que abriu os olhos com um sorriso de reconhecimento para alguém que nunca fora uma estranha para ele."

jul 22 2024 ∞
jan 27 2025 +