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“Fico diante do incomparável café de Zak. Os ventiladores giram no teto, simulando as quatro direções de um cata-vento transversal. Ventos fortes, chuva fria ou a ameaça de chuva; um insinuante continuum de céus calamitosos que permeiam sutilmente todo o meu ser. Sem perceber, sou envolta por mal-estar leve porém prolongado. Não uma depressão, algo mais com um fascínio pela melancolia, que giro na mão como se fosse um pequeno planeta, triscado de sombras, de um azul impossível.”
“Fiquei ali enquanto a neve caía, imaginando Brecht escrever sua peça. O homem nos dá guerra. Uma mãe lucra com isso e paga com a filha; eles caem um a um como pinos de madeira ao final de uma pista de boliche.”
“Volto a guardar After Nature na prateleira, na segurança de muitos portais do mundo. Eles flutuam por estas páginas geralmente sem explicação. Escritores e seus processos. Escritores e seus livros. Não posso supor que o leitor conhecerá todos eles, mas afinal, será que o leitor me conhece? Será que o leitor deseja isso? Só posso almejar isso, enquanto ofereço o meu mundo numa bandeja cheia de ilusões. Como a oferecida pelo urso empalhado na casa de Tolstói, uma bandeja oval que já transbordou nomes de visitantes, infames e obscuros, pequenas cartes de visite, muitos entre tantos.”
“Imagens sempre têm um jeito de se dissolver e depois retornar abruptamente, trazendo junto a alegria e a dor ligadas a elas, como latinhas chacoalhando atrás e um carro antigo de um casamento. Um cachorro preto numa faixa de praia, Fred de pé sob a sombra das folhas de uma mangueira flanqueando a entrada para a prisão de Saint-Laurent, a caixa de fósforos Gitane azul e amarela embrulhada no lenço dele e Jackson disparando na frente, procurando o pai no céu claro.”
“Uma súbita lufada de vento sacode os galhos das árvores, espalhando o redemoinho de folhas que refletem a luminosidade de forma fantasmagórica. Folhas como vogais, sussurros de palavras como um alento livre. Folhas são vogais. Eu as espalho na esperança de encontrar as combinações que procuro. A linguagem dos deuses menores. Mas e o próprio Deus? Qual é a sua linguagem? Qual é o seu prazer? Será que ele mistura versos de Wordsworth, as frases musicais de Mendelssohn e vivencia a natureza como os gênios as concebem? Sobe a cortina. A ópera humana se desdobra. E na caixa reservada para os reis, mais trono que caixa, está o Todo-Poderoso.
“Enquanto pensava sobre o que iria dizer, a canção ‘What a Wonderful World’ começou a tocar no rádio. Sempre que ouvíamos Fred dizia: Trisha, é sua música. Por que essa é a minha música?, eu protestava. Eu nem gosto do Louis Armstrong. Mas ele insistia que era a minha música. Aquilo pareceu um sinal do Fred, por isso resolvi cantar ‘What a Wonderful World’ a capela na missa. Enquanto cantava, senti a beleza simplista da música, mas ainda não entendia por que ele relacionava comigo, uma pergunta que eu tinha esperado demais para fazer. O mundo parecia drenado de maravilhas. Não escrevi poemas ardentes. Não vi o espírito de Fred à minha frente nem senti a rodopiante trajetória de sua jornada.”
“Fecho o meu caderno e fico sentada no café pensando sobre o tempo real. Será que o tempo é ininterrupto? Só abrange o presente? Será que nossos pensamentos são apenas trens passageiros, sem paradas, destituídos de dimensão, zunindo com grandes cartazes de imagens repetidas? Captando um fragmento de um assento na janela, com um idêntico fragmento no próximo quadro? Se eu escrever no presente, com digressões, ainda será em tempo real? O tempo real, raciocinei, não pode ser dividido em seções, como números no mostrador de um relógio. Se eu escrever sobre o passado enquanto lido simultaneamente com o presente, ainda estou em tempo real? Talvez não exista passado nem futuro, somente um perpétuo presente contendo essa trindade da memória.”
"Esmiucei meus nichos de alegrias antigas, me detendo em um momento de exaltação secreta. Levaria algum tempo, mas eu sabia exatamente o que fazer. Primeiro, eu fecharia os olhos e me concentraria nas mãos de uma garota de dez an os usando uma chaveta para ajustar os patins nos sapatos de um garoto de doze anos. Tenha pensamentos felizes. Eu passaria pelo portal apenas patinando."
"Desejamos coisas que não podemos ver. Tentamos conservar certos momentos, sons, sensações. Quero ovir a voz da minha mãe. Quero ver meus filhos ainda crianças. Mãozinhas pequenas, pés ligeiros. Tudo muda. Garoto crescido, pai morto, filha mais alta que eu, chorando por causa de um sonho ruim. Por favor, fiquem aqui para sempre, digo para as coisas. Não vão embora. Não cresçam."
"Tudo se projeta para frente. Fotografa sua história. Registra suas palavras. Cerceia seus sons. Os espíritos se erguem como um éter, gerando um arabesco e se assentando com a delicadeza de uma máscara benevolente."
"Acredito no momento. Acredito nesse balão alegre, o mundo. Acredito na meia-noite e na hora do meio-dia. Mas no que mais acredito? Às vezes em tudo. Às vezes em nada. É algo que flutua como a luz refletindo numa lagoa. Acredito na vida que um dia todos vamos perder. Quando somos novos acreditamos que isso não vai acontecer, que somos diferentes. Quando era criança eu achava que nunca iria crescer, que podia realizar esse desejo com a minha vontade. E depois percebi, bem recentemente, que tinha atravessado algima divisória, inconscientemente encoberta pela verdade da minha cronologia. Como ficamos tão velhos?, pergunto às minhas articulações, ao meu cabelo cor de ferro. Agora já estou mais velha que meu amor, que meus amigos que já se foram."