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"...e mesmo quando eu merecia uma boa nota na escola, ou demonstrava diligência e lealdade, me tiravam metade do mérito insinuando que fora Alessandro a se expressar através de mim. Essa extinção da minha personalidade me fez crescer arisca e taciturna e, mais tarde, tomei por confiança em meus dote aquilo que era apenas o desvanecimento da lembrança de Alessandro em nossos pais."
"Naquele momento recordo de ter intuído que ela não permaneceria por muito tempo próxima a mim: suas palavras vinham já de um mundo distante, como se ela me falasse através de muito ar, ou de água. Abracei-a quase como para retê-la e não ousei olhar para o seu rosto temendo captar ali um esboço de despedida."
"Éramos, me parecia, uma espécie gentil e desafortunada. Através da minha mãe, e da mãe dela, e das mulheres das tragédias e dos romances, e daquelas que se debruçavam sobre o pátio como das grades de uma prisão, e das outras que eu encontrava na rua e que tinham olhos tristes e ventres enormes, eu sentia pesar sobre mim uma infelicidade secular, uma inconsolável solidão."
"Assim, a consciência da minha condição de mulher me sugeria um sentimento de culpa. Envergonhada, eu descobria no meu corpo cada indício que revelasse tal condição e a tornasse óbvia não só para mim mesma como também para os outros."
"Creio, por isso, que nenhum homem teria o direito de julgar uma mulher sem saber de que matéria diferente dos homens as mulheres são feitas. Não considero justo, por exemplo, que um tribunal composto exclusivamente de homens decida se uma mulher é culpada ou não. Porque se existe uma moral comum que vale para homens e para as mulheres, e à qual é costumeiro observar, como poderá afinal um homem compreender verdadeiramente as sutis razões que conduzem uma mulher ao entusiasmo ou ao desespero e que nela são conaturais, formam com ela uma só coisa, desde seu nascimento?"
"Eu silenciava, fitando o rio escuro. Queria perguntar à minha mãe se ela de fato acreditava que os outros viviam com facilidade, ou se no viver já existia um sofrimento extenuante e profundo que ninguém podia consolar. Mas estava fascinada por ela, pelo encanto que experimentava ao ver brotar um gesto seu, ao escutar o ritmo harmonioso de cada palavra sua."
"'Muitas vezes me perguntei', prosseguia ela, 'de que lado estava a razão: se do meu ou do deles. Parecia-me rer sido feita de um modo anormal, como os que nascem com duas cabeças ou com seis dedos. Tentava me adaptar aos compromissos deles. Depois me convenci de que sou eu quem está com a razão. Eu tenho razão. Nós temos razão: mas eles são mais fortes.'"
"Meu passado não tinha sido Roma, uma cidade, uma casa: tinha sido minha mãe. E ela havia morrido."
"'Um homem na guerra: é um herói. Ainda que seu heroísmo tenha sido insconsciente. Ah!', fez Vovó, batendo a mão no braço da poltrona e se erguendo na majestade de sua estatura. 'Mas quantas vezes uma mulher deve morrer conscientemente, em sua vida miserável de todo dia?"
"Por isso era inútil lhe revelar outra causa do meu sofrimento: o hábito que ele adquiriria de não me dizer mais 'eu te amo', mas sim 'eu te quero bem'. Sua resposta seria a de que era a mesma coisa: mas eu tinha Fulvia, Lydia, Vovó, muitas pessoas que me queriam bem; e somente ele para me amar."
"Eu preferiria comer somente pão e azeite a ter de lavar pratos e ficar na fila. Não é verdade que fazer essas coisas esteja na vocação das mulheres, elas as fazem quando é necessário e sobretudo para serem úteis e agradáveis aos homens, assim como fazem outras coisas por eles, quando amam, até as coisas horríveis e cruéis que eu fiz."
"Não me contava mais o que sentia em consequência de seu amor por mim talvez pensasse que já era supérfluo falar disso; no entanto, o amor está justo na necessidade de expressá-lo continuamente e no desejo de ouvi-lo ser continuamente expresso."
"Acordada, me sentia oprimida por um pesadelo: no apartamento de cima, no contíguo, nos brancos condomínios modernos que surgiam ao lado do nosso, em todas as casas de Roma, em todas as casas do mundo, eu via as mulheres acordadas no escuro, atrás do muro intransponível dos ombros masculinos. Falávamos línguas diferentes, mas todas tentávamos em vão fazer ouvir as mesmas palavras: nada podia atravessar a defesa inabalável daqueles ombros. Era preciso nos resignarmos a esrar sozinhas, atrás do muro; e nos abraçarmos entre nós, nos ampararmos, formarmos um grumo de sofrimento e de espera."