"via-se metade ao espelho e achava tudo demasiado breve, precipitado, como se as coisas lhe fugissem, a esconderem-se para evitar a sua companhia. via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. para dentro do homem o homem caía."

"pensava que quando se sonha tão grande a realidade aprende."

"a natureza, quieta a ser só inteligente e quieta, não disse nada, nem o crisóstomo esperaria ouvir uma voz. a esperança era uma coisa muda e feita para ser um pouco secreta."

"quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz."

"o homem que chegou aos quarenta anos sorriu, e aquele sorriso já não era o mesmo do dia anterior. já não era como nenhum outro do passado. era o dobro de um sorriso."

"que ridícula soava a ideia de uma triste anã querer amar se o amor era um sentimento raro já para as pessoas normais. para as pessoas."

"porque o amor era espera e ela, sem mais nada, apenas esperava. a isaura sabia que amava alguém por vir, amava uma abstracção de alguém no futuro. ela esperava o futuro, e esperar era já um modo de amar. esperar era amar. certamente, amava de um modo impossível o futuro."

"que sorte, assim não precisa ser ninguém. quem não é ninguém não lhe falta nada."

"amo-te muito, filho. sabes, filho, amo-te muito."

"crisóstomo explicava que o amor era uma atitude. uma predisposição natural para se ser a favor de outrem. é isso o amor. uma predisposição natural para se favorecer alguém. ser, sem sequer pensar, por outra pessoa."

"quem perdeu a mãe perde-a para sempre e nunca mais para de a perder."

"ela perguntou: podes repetir. ele disse: amo-te, isaura. subitamente, metade das coisas pareciam compostas."

"o antonino disse à isaura que amasse. que amasse, pelos dois, o pescador, que dele cuidasse como quem cuidava do importante destino do mundo. o toque de alguém, dizia ele, é o verdadeiro de cá da pele. quem não é tocado não se cobre nunca, anda como nu. de ossos à mostra."

"e amar uma pessoa é o destino do mundo."

"se não esperamos nada, dizia ele, tudo quanto existe é já abundância."

"quando se conhece alguém, pensou crisóstomo, procuram-se as exuberâncias dos gestos, como para fazer exuberar o amor, mas o amor é uma pacificação com as nossas naturezas e deve conduzir ao sossego. o gesto exuberante é um gesto desesperado de quem não está em equilíbrio."

"o crisóstomo deitou-se delicadamente ao seu lado e poderia ser até que apenas conversassem. aquele era o sentimento mais intenso do mundo. o crisóstomo então levantou-se, atravessou o quarto, saiu, foi ver o camilo deitado e beijá-lo para dormir e disse-lhe: nunca limites o amor, filho, nunca por preconceito algum limites o amor. o miúdo perguntou: porque dizes isso, pai. o pescador respondeu: porque é o único modo de também tu, um dia, te sentires o dobro do que és."

"antes de dormir, o camilo disse que amava o crisóstomo, amava o seu pai. precisou de o dizer para não se limitar no amor. precisou de o dizer para si mesmo, baixinho, para não se limitar no amor."

"quando falou da morte da rosinha e da adopção da mininha pela matilde, ele apenas denunciou o carinho que esperava do mundo. tratava as coisas todas como se as coisas todas fossem para melhorar. era triste que ninguém tivesse percebido isso até então."

"naquelw instante, nenhum dos convidados quereria ser outra pessoa. o crisóstomo pensava nisso, em como acontecer a qualquer um, num certo instante, não querer trocar de lugar com rei ou rainha nenhuns de reino nenhum do planeta."

"mas não era uma tristeza, era exactamente uma saudade de ter sofrido o que sofrera, o necessário para lhe ensinar a usufruir mais tarde, agora, a felicidade. achava ele que se devia nutrir carinho por um sofrimento sobre o qual se soube construir a felicidade."

"cada filho somos nós no melhor que temos para dar. no melhor que temos para ser."

"Havia dentro de si, maduro, um amor pronto para entrega, um tesouro pertença de alguém que já não ele, e alguém teria de vir para o tomar. chamava-se crisóstomo."

"o crisóstomo disse ao camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo."

"o crisóstomo abraçou o camilo e repetiu: amo-te muito, meu filho. era o que mais queria dizer: meu filho.

feb 13 2022 ∞
jan 27 2025 +