"Foi uma das cenas mais tristes da tarde, da semana, talvez de toda a relação: Carla e Gonzalo de mãos dadas, rumo à Alameda, conversando sobre a novela. Eram como dois desconhecidos procurando desesperadamente um assunto em comum; pareciam que conversavam sobre algo e estavam juntos, mas sabiam que na verdade não conversavam sobre nada e estavam sós."

"Eles acham que são generosos porque contribuem com setecentos pilas por mês, mas nunca fizeram uma tarefa de casa com os figlhos, que ainda assim os amam e os incluem em todos os desenhos. Mesmo que não cheguem. Porque às vezes eles não chegam. Os pais biológicos, os pais separados, os pais da ponta para fora são todos a mesma merda. Às vezes não chegam e fica tudo bem. Essa garantia foi dada a eles. Podem desaparecer que continuarão sendo esperados, perdoados, bem-vindos, e qualquer demora, qualquer reclamação, qualquer coisa pode ser consertada com um saco de pipoca ou com enigmáticos ursos de pelúcia."

"Não. Quero dizer que essa é a nossa língua, nosso idioma. É preciso usar as palavras, mesmo que a gente não gpste delas. Se as usarmos o suficiente, talvez signifiquem algo diferente, quem sabe não conseguimos mudar seu significado."

"Dizem que isto é felicidade: nunca sentir que seria melhor em outro lugar, nunca sentir que seria melhor ser alguém que não você. Outra pessoa. Alguém mais jovem, mais velho. Alguém melhor."

"É uma ideia perfeita e impossível, mas, mesmo assim, durante todos aqueles anos, Carla geralmente queria estar exatamente onde estava. Gonzalo também. E Vicente também, Vicente mais que todos queria estar exatamente onde estava, com exceção dos fins de semana com seu pai, quando sentia saudades de seu quarto, de sua casa, de sua família."

"... E é melhor que escrevam. É melhor escrever do que não escrever. A poesia é subversiva porque te expõe, te rasga em pedações. Você se atreve a desconfiar de si mesmo. Você se atreve a desobedecer. Essa é a ideia, desobedecer a todo mundo. Desobedecer a você mesmo, isso é o mais importante. É crucial. Eu não sei se gosto dos meus poemas, mas se que se não tivesse os escrito, seria mais iditoa, mais tolo, mais individualista. Eu os publico porque estão vivos. Não sei se bons, mas merecem viver."

"As pessoas têm medo do inputil. Tudo tem que ter um propósito. Elas odeiam o ócio, são apaixonadas pelo negócio. Têm medo da solidão. Não sabem ficar sozinhas."

"Talvez exista uma palavra para designar o contrário do luto, o que se sente não depois que alguém morre, e sim quando esse alguém reaparece; o que se sente quando, de súbito, recuperamos alguém que havia permanecido ausente até mesmo de nossos sonhos. Palavras como renascimento ou ressurreição são tão inadequadas, porque o que Gonzalo sente é mais complexo, mais específico: o contrário de luto coexiste com o luto, é uma espécie de alegria elegíaca."

"Teria sido melhor pôr a culpa na poesia, mas isso teria sido mentira, porque aqui estão esses poemas que acaba de ler, poemas que demonstram que a poesia serve para alguma coisa, que palavras doem, vibram curam, consolam, repercutem, permanecem."

"Não vou saber, não vamos nunca saber, porque isto termina aqui, porque isto termina bem, como terminariam tantos livros que amamos se arrancássemos as páginas finais. O mundo desmorona e quase sempre tudo vai à merda e quase sempre machucamos as pessoas que amamos ou elas nos machucam irremediavelmente e não parece haver motivos para acalentar qualquer tipo de esperança, mas ao menos esta história termina bem, termina aqui, com a cena desses dois poetas chilenos que olham nos olhos um do outro e que dão gargalhadas e que por motivo nenhum querem ir embora desse bar, de modo que pedem outra rodada de chopes."

jun 12 2025 ∞
jun 12 2025 +