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"Lembro: tinha imaginado o nosso primeiro encontro de tantas maneiras, nunca tão silencioso, quase solene. Eram 11h10, e não sei se por minutos ou menos que isso nos encaramos com estranheza, ainda sob o impacto de termos sido separados. Agora éramos dois e, diferentemente do que eu acreditava, o amor não explodiu, óbio, nada foi imediato. O cordão que nos unia numa intimidade absoluta tinha sido cortado, nossos olhares eram puro espanto. Precisávamos de tempo para tecer outro cordão, o fio invisível que traçaria permanentemente umm laço macio e elástico."
"Hoje ele entra em casa, joga as chaves na mesa sem notar o calendário aberto, cumprimenta os gatos e, ao passar pelo escritório, diz olá, me encarando daquele mesmo jeito sério: são 11h10, estou na maternidade olhando para meu filho pela primeira vez."
"O livro dos dias me salva da maldição. A corrente se quebra quando encontro ali uma mensagem que leio como se fosse a primeira vez. Então me dou conta de estar não estar no mesmo lugar, de ser a mesma, mas também outra, como os dias que pairam sobre o tempo do calendário perpétuo - ano após ano, o dia antigo em que minha mãe morreu se repete igual e diferente, como tudo o que ressucita."
"Na nossa tela mental, os quadros do passado podem ter sido falsificados pela tinta fresca do presente. Mas em algum lugar, dentro de nós, restam traços do original. Persigo esses rastros para me guiar pela vida da minha mãe e, se me aproprio de incertezas para pintar um retrato, se alguns traços não são exatamente iguais, é possível que eu não esteja falando só dela, ou talvez seja sobre o que dela vive em mim: meus pentimentos contaminando o passado da minha mãe e o meu presente."
"A memória é colorida pela invenção. Encobrimos o que se apagou com os tons da imaginação, uma paleta de cores que refaz pessoas e cenários entre pinceladas de calma ou de fúria, com texturas ora aveludadas, ora vibrantes, retoques de última hora, às vezes sombrios. Mas quantas nuances se perdem quando tentamos recuperar uma tela do passado?"
"Palavras que fui naquele momento: surpresa, angústia, comoção, trampolim, embaraço, maresia. Nos misturamos num abraço desajeitado, mas hoje sinto que ali cabiam muitas de nós, mães e filhas."
"O rosto da mãe foi desaparecendo aos poucos - a flacidez mais acentuada do lado esquerdo, as sobrancelhas menos densas, rugas que inventam tristeza quando a boca não contraria com o sorriso. É como se ela emergisse de dentro, da camada mais profunda da pele, modificando os traços herdados do pai. Reconheço minha mãe envelhecendo em mim."
"Não é possível realinhar perfeitamente o passado. Também ele se move quanto mais avanço para o futuro, e hoje o rosto dela ressurge no meu mostrando detalhes que só a distância poderia iluminar. Algumas descobertas são pertubadoras; outras surpreendem com o que, antes, não era visível, provando que nenhum registro é imune ao tempo: há anos no mesmo porta-retratos, a fotografia do meu filho ainda de fralda no colo da avó de sessenta e quatro anos já não é só uma imagem banal de uma tarde qualquer. Quando fixei aquele momento, não sabia que estava fotografando a saudade."
"Feliz aniversário, diz para ela e para si mesma. Com as técnicas que domina, brinca de misturar cenas e coloca rostos e corpos em movimentos aleatórios, holografias que simulam um passado tridimensional criando instantes que talvez não tenham existido. Como este que estamos agora, eu e minha mãe, fantasmagóricas, sorrindo para neta e bisneta, que ainda não nasceu."
"Latejando sob as unhas dos meus dedos, tão parecidos com os dela, encontro a mesma dor, que tento anestesiar com outra dor. Às vezes sou minha mãe machucando os nossos dedos."
"Dias depois, as penas do Jeremias se juntaram às cinzas da nossa mãe, cada qual na sua caixinha. Imaginei que ela ficaria contente, ou, no mínimo, menos contrariada. Mas não consegui não pensar em como tudo aquilo era triste; dois pássaros que nunca poderam voar."