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"é bem possível que ambas as versões sejam verdadeiras: ele se alegrava pela sua libertação, ao mesmo tempo em que chorava pela sua libertadora. muitas vezes, as pessoas, mesmo más, são mais ingênuas, mais simples, do que podemos imaginar. aliás, nós também somos."
"é exatamente - disse o mestre- o que me dizia, há muito tempo, o médico de meus amigos, homem maduro e inteligente. ele se exprimia tão sinceramente quanto a senhora, embora, brincando, mas com tristeza. "amo", ele me dizia,"a humanidade; mas, para minha surpresa, quanto mais amo a humanidade em geral, menos amo as pessoas em particular, como indivíduos [...] em compensação, invariavelmente, quanto mais detesto as pessoas em particular, mais ardo de amor pela humanidade em geral."
" -irmão, deixe-me fazer uma pergunta, é possível que todos tenham o direito de julgar seus semelhantes, de decidir quem merece viver e quem não merece mais? -para que meter nisso a avaliação dos méritos? resolvendo essa questão, o coração humano quase não se preocupa com os méritos, mas com outras razões muito mais naturais. quanto ao direito, quem não tem o direito de desejar?"
"-que torturas? ah! nem me fale: antigamente, era usada uma coisinha ou outra, mas atualmente são mais usuais as torturas morais, "os remorsos da consciência" e todas essas besteiras. isso também foram vocês que inventaram, com "o abrandamento dos costumes". e quem saiu ganhando? só as pessoas sem escrúpulos, pois o que são os remorsos da consciência para as pessoas que não têm consciência? mas as pessoas decentes, que tinham consciência e honra foram condenadas ao sofrimento..."
"a consciência? o que é a consciência? eu mesmo a crio. então, por que me atormento? por hábito. pelo hábito universal dos homens, um hábito muito antigo, de sete mil anos..."
"no momento, estamos horrorizados ou fingimos estar, ao mesmo tempo saboreando o espetáculo, como amantes de sensações fortes, excêntricas, que abalam a nossa ociosidade cinicamente preguiçosa; ou, enfim, como se fôssemos criancinhas, expulsamos os fantasmas terríveis e escondemos a cabeça debaixo do travesseiro, esperando que os fantasmas se afastem, para logo esquecê-los no meio da alegria, dos prazeres e dos jogos."
"a sensação da própria queda degradante é tão indispensável a essas naturezas desenfreadas, frenéticas, quanto a sensação da mais alta nobreza moral."
"então, saibam que não há nada mais nobre, mais forte, mais saudável, mais útil, na vida, do que uma bela lembrança, principalmente uma lembrança da infância..."