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"Quando voltei, encontrei Ray sentado na varanda ampla de um templo, cercado de crianças. Estava cantando para elas, o sol um halo ao redor do cabelo comprido. Não pude deixar de pensar nas escrituras - Deixai vir a mim as crianças. Ele ergueu os olhos para mim e sorriu. Ouvi risadas, sinos tilintando, pés descalços nos degraus do templo. Tudo estava tão próximo, os raios do sol, a doçura, um sentido de tempo perdido para sempre."
"No meu último dia, embora o horário de visitas já tivesse acabado, ninguém me pediu para sair, então fiquei até anoitecer. Me vi projetando constelações de palavras sobre os lençóis brancos, uma confusão interminável de frases que jorravam das bocas de totens miraculosos alinhados num horizonte inacessível. Medeia e deuses-macacos e crianças e embalagens de doces. O que você ia fazer com isso, Sandy?, provoquei em silêncio. Máquinas pulsando. Soro pingando. Sandy apertou a minha mão, mas a enfermeira disse que isso não significava nada."
"Dez mil anos ou dez mil dias, nada pode parar o tempo ou mudar o fato de que eu vou chegar aos setenta no Ano do Macaco. Só um número, mas um indicativo da passagem de uma parte significativa da areia prevista na ampulheta. Os grãos caem e me pego sentindo falta dos mortos, mais do que o normal. Notei que choro mais quando assisto televisão, reagindo a um romance, a um detetive aposentado baleado nas costas enquanto encarava o mar, a um pai exausto pondo o filho no berço. Notei que minhas lágrimas me queimam os olhos, que não sou uma corredora veloz e que a minha noção de tempo parece estar se acelerando."
"Fora dali, à distância de uma viagem longa de metrô, a visão do mundo desaparece. O que resta são algumas borboletas, duas joaninhas e um louva-a-deus. Tudo se resume à minha escrivaninha com um retrato de estúdio de um jovem Baudelaire e uma daquelas fotos de cabine de uma jovem Jane Bowles e um Cristo de marfim sem os braços e uma pequena gravura emoldurada de Alice conversando com o Dodô. Tudo se resume a uma polaroide meio borrada de Sam e eu no Café'Ino há alguns anos, quando as coisas eram quase normais."
"Todo mundo morre, ele disse, baixando os olhos para as mãos que iam aos poucos perdendo a força, ainda que eu nunca tenha imaginado isso. Mas por mim tudo bem. Vivi minha vida do jeito que eu quis."
"É o calor sem precedentes e os arrecifes agonizantes e as calotas polares se partindo que me assombram. É Sandy deslizando pelas portas da consciência, travando uma luta contra as infecções bacterianas, enquanto mapeia os próprios cenários apocalípticos direto das entranhas do Heart O' the City Hotel, de Matrix. Posso ouví-lo pensando, posso ouvir as paredes respirando. Talvez uma pausa seja necessária, uma espécie de intervalo, uma retirada de um único cenário, permitindo que outra coisa se desdobre. Alguma coisa insignificante, luminosa e totalmente inesperada."
"Não perguntei à placa como meu marido se saiu em qualquer que tenha sido o lugar atribuído a ele no universo. Não perguntei qual o destino de Sandy. Ou Sam. Essas coisas eram proibidas, como suplicar aos anjos com uma oração. Sei disso muito bem, uma pessoa não pode perguntar por uma vida, ou dias vidas. Pode apenas garantir a esperança num aumento do poder do coração de cada homem."
"Sandy abra os olhos. Tracei essas palavras na janela com minha mão esquerda, de novo e de novo, como se produzisse um feitiço. O tipo de feitiço de um ardente Artaud, um que realmente funcionasse. Mas nenhum esforço místico seria capaz de realizar a diretriz do Ceifador. Era 26 de julho. O prelúdio terminou, Parfisal ajoelhou diante do cisne ferido de morte e Sandy Pearlman deixou a terra."
"A banda tocou bem alto, as pessoas estavam barulhentas, em erupção espontânea. Talvez alguns tenham seguido o fio ferido da velo de Jasão até a tosquia de Medeia e a terrível bruxaria do além, mas isso não importava. Cantei para o Sandy, e a poesia que vomitava era para ele. Contemplei o sorriso reluzentem aqueles olhos azul-claros, e senti por um instante aquela arrogância alegre que abriu seu manto no altar da ópera, da mitologia e do rock 'n' roll. Eu estava exatamente onde ele estava, e ficamos ali, cada um pressentindo o outro, no precipício da tragédia irremediável."
"Pode nos retratar se quiser, mas somos espinhos vivos, o perfurado e a perfuração. E acordei, e o que estava feito estava feito. A corrente humana estava em marcha e suas vozes vibravam no ar como uma nuvem de insetos devastadores. Uma pessoa não pode se aproximar da verdade, nem acrescentar ou tirar, pois não há ninguém na terra como o verdadeiro pastor e não há nada no paraíso como o sofrimento da vida real."
"Em vez disso ele ia deslizar com habilidade para o grande sono, como as crianças de cidade morta espalham folhas de papel vegetal em cima de montes de corpos correndo em direção ao paraíso. Você chega lá mais rápido deslizando num papel vegetal, toda criança sabe disso. Isso é o que eu sei. Sam está morto. Meu irmão está morto. Minha mãe está morta. Meu pai está morto. Meu marido está morto. Meu gato está morto. E meu cachorro que morreu em 1957 continua morto. E ainda assim eu continuo achando que alguma coisa maravilhosa está para acontecer. Quem sabe amanhã. Um amanhã e depois uma sucessão inteira de amanhãs."