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“O amor tem nome, mas não é nada que a gente possa reconhecer só de olhar. A dor a gente sabe o que é, tem lugar e intensidades que cabem na ciência. A raiva, o medo, o ódio entortam a cara com um jeito provável de se manifestar. Mas e o amor? O que é senão um monte de gostar? Gostar de falar, gostar de tocar, gostar de cheirar, gostar de ouvir, gostar de olhar. Gostar de se abandonar no outro. O amor não passa de um gostar de muitos verbos ao mesmo tempo.”
“Perder amores é escurecer por dentro, uma memória do corpo que o entardecer evoca quando tinge o céu de vermelho. Para quem está sorrindo depois de ter amado, o fim do dia é muito triste.”
“Não deveria Deus, em sua imensa bondade, proteger os filhos das duas? Não seria justo que assim fosse? No entanto, outro enredo se desenrola: para uma delas, todas as bênçãos; para a outra, o maior dos sofrimentos. De que é feita então a justiça divina? De mistérios que devemos engolir como saliva? Se Deus sabe o que faz, e sempre faz o que quer, para que servem a prece e o fervor de quem suplica? Será um capricho nos querer ajoelhados? A vida revela sem constrangimento que alguns são ouvidos, outros não. Acaso não somos todos iguais diante do Senhor? Se o exemplo vem de Deus, se devemos buscar ser sua imagem e semelhança, que exemplo Deus nos dá quando uns se tornam mais merecedores do que outros? Não estaria a justiça divina inspirando a injustiça humana?”
“Alheias a qualquer pergunta, algumas mães de filhos mortos encontram força em acreditar que a vontade de Deus anda sempre junto com a bondade. Não duvidam: foi da vontade do Senhor a morte violenta do meu filho. Não compreendem, mas aceitam humildades a provocação. Nenhuma folha cai sem que Deus permita. Ele sabe para que serve a minha dor. O sofrimento, por uma insanidade humana ou por uma perversidade divina, tem valor. Assim crêem os que creem. Encontram no calvário um sentido para além da vida. Todo o propósito oculto das coisas a Deus pertence. A dor sem tamanho afasta a coragem de não crer. Aceitam esse Deus imperfeito feito à imagem e semelhança dos homens.”
“Outras mães desistem. Não podem mais se entregar a uma fé que não explicam. Não sentem a bondade atrás da vontade de Deus. Sentem o abandono. Definham. Não querem mais amar a um Deus que não pôde proteger aos seus filhos. Enfrentam sozinhas a revelação: a ilusão está nua, a vida é deriva.”
“Algumas vezes as mudanças acontecem na marra. Uma guilhotina afiada corta as nossas mãos, e todas as rédeas escapam. É o que pensamos ter acontecido, até que a gente se dá conta de que nunca houve rédeas. Ninguém monta na vida. Brincamos de escolher, brincamos de poder conduzir o destino.. Precisamos dessa ilusão para viver os dias de antes, dias em que podemos tudo só porque pensamos poder, e então a vontade do que está fora da gente joga sua sombra densa e pegajosa. Ficamos prisioneiros do que não queremos muito antes da morte.”