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"Era uma explosão de vida quando se chegava ao fundo. Fundo, bem abaixo do alcance dos maiores mamíferos e de onde nasciam as algas mais distantes a captar as últimas migalhas do sol, abaixo das metrópoles vivas de corais, das cavernas, dos naufrágios, do lar das criaturas gigantes e das bactérias comedores de calor. Ela explodia bem mais fundo, onde a luz do sol jamais tocou e nem por isso era só escuridão, deserto, silêncio; porque era ali que a vida, a própria vida, emitia luz."
"Águas-vivas cor de carne bailavam, rodopiantes, flutuando num espetáculo com uma plateia numerosa, porém totalmente indiferente, mais interessada na própria marcha rumo à multiplicação."
"Nem sereias, nem serpentes gigantes nem qualquer outra criatura fantástica cruzou o caminho; nem era preciso que isso acontecesse para que a expedição lhes parecesse emocionante. Era um tanto assustador saber que estavam, de fato, dividindo um ambiente com aquelas criaturas: crustáceos pinçando pedras em busca de algum detrito que pudessem engolir; pontilhados de luzes azuis desenhando a figura de uma lula que passava por eles com desconfiança; vermes, lesmas, todo tipo de pepino e de minúsculos peixes transparentes; uma nuvem esbranquiçada que era um país, um continente inteiro de bactérias adensadas que, sozinhas, podiam ser invisíveis aos olhos humanos, mas numericamente superiores em uma escala para eles inconcebível."
"Devia haver um bom motivo para o corpo humano não ser capaz de visitar certos lugares. Onde a sensatez não servia como freio para a curiosidade de mamíferos teimosos, a menos que o próprio corpo servisse como limite."
"A verdade era que Corina fazia o que queria, quando queria, enquanto podia, pensando apenas em satisfazer impulsos que podiam ir e vir como ondas num dia agitado, arrastando-a para decisões precipitadas, escolhas absurdas, caminhos que não faziam sentido; mas imaginou que aquela não fosse a resposta mais adequada para a situação."
"Vida e oceano nascendo juntos, sem um não haveria o outro, numa relação simbiótica que conduzia à mais difícil pergunta: quem nasceu primeiro?."
"A solidão também levava as criaturas aos entendimentos mais profundos da existência."
"Azúlis nem pareciam pertencer à mesma era e ao mesmo habitat que outros animais de aparência grotesca, de tubarões de maxilar espiralado a escorpiões marinhos gigantes. A truculência, definitivamente, estava na moda. No entanto, azúlis desenvolveram corpos graciosos, de forma gelatinosa, quase totalmente translúcidos e dotados de uma luminescência azul que era marcante em um lugar tão escuro e frio quanto o fundo do abismo."
"Ela desejou que não fosse uma crise logo ali, ou ela não saberia o que fazer. Sentiu o corpo inerte, mas calculou que era natural não se mexer porque o próprio tempo havia parado - curioso como era fácil se adaptar a situações em que até as leis básicas da física pareciam absurdas, e foi assim, suspensa no vazio, que viu uma mulher se aproximar."
"Por um breve momento até pensou que fosse sua dupla, até perceber que tinha uma cauda, muito lisa e azul, que seria bastante parecida com a dos golfinhos se não terminasse em uma enorme nadadeira caudal. A mulher chegou perto, os cabelos verdes de algas quase enrolando nos braços e no pescoço de Corina, e chegou tão perto que ela conseguiu ver que aqueles olhos tinham a mesma cor dos seus."
"O que era a coragem se não a vaidade de se achar superior a qualquer ameaça?"
"Era estranho ser sozinha, não ser parte de nada, a solidão tão desesperadora quanto a própria morte."
"Descobriu com alguma infelicidade que ser um indivíduo era também ser pequeno e sentir medo o tempo inteiro."