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INTP-T | ᴍᴇᴜ ᴇᴜ ʟɪ́ʀɪᴄᴏ
[ threatening country music ]
desobedeci e continuo desobedecendo
desligue a luz e feche a porta antes de sair
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  • 2025
    • 18/12

"Sarah é isso, sua beleza inédita, seu nariz abrupto de pássaro raro, seus olhos de uma cor inaudita, rochosa, verde, não, verde não, seus olhos cor de absinto, de malaquita, verde-escuro acinzentado, seus olhos de ser-pente de pálpebras caídas. É assim a primavera em que Sarah entrou na minha vida como quem entra em cena, cheia de vigor, conquistadora. Vitoriosa."

"Um dia, mais exatamente uma noite, ele saiu do apartamento e depois. E depois mais nada. Como é possível que de um dia para o outro, quer dizer, literalmente de um dia para o outro, entre duas pessoas que se amam há tantos anos, possa não haver mais nem olhar, nem fala, nem diálogo, nem discussão, nem raiva, nem cumplicidade, nem ternura, nem amor. É essa loucura, essa aber-ração que me constitui dia após dia. Eu acho que a vida vai parar aqui. Não espero nada nem ninguém."

"É Sarah, alguém diz com satisfação. Não sei quem é Sarah. Sabe sim, me dizem, vocês já se cruzaram. As circunstâncias me são descritas. Nenhuma lembrança. A anfitriã da casa vai abrir a porta do apartamento. Sim, é Sarah. Eu não a reconheço. Ela chega atrasada, ofegante, sorridente. É um tornado inesperado. Fala alto, rápido, tira de sua bolsa uma garrafa de vinho, coisas para comer, uma profusão de trecos. Tira seu cachecol, seu casaco, suas luvas, seu gorro. Coloca tudo no chão, sobre o carpete creme. Pede desculpas, brinca, saracoteia. Fala chulo, com palavras vulgares que parecem flutuar no ar após serem ditas. Faz muito barulho. Não havia nada, apenas silêncio, risos afetados, expressões cerimoniosas e, de repente, só existe ela. É irritante. A anfitriã franze as sobrancelhas, em seu vestido de festa. Sarah não percebe, abraça todo mundo vigorosamente. Ela se inclina em minha direção, tem o cheiro do ar cortante de fim de dezembro. Tem as bochechas vermelhas daqueles que se apressam. Está maquiada demais. Não está muito bem vestida, não colocou sua melhor roupa, não está elegante, não arrumou o cabelo com sofisticação. Fala muito, se lança sobre uma taça de vinho que lhe oferecem, morre de rir com uma brincadeira. Ela é animada, exaltada, apaixonada."

"Ela é violinista. Fuma cigarros. Está maquiada demais, é ainda pior quando a olhamos de perto. Fala alto, ri muito, é engraçada à sua maneira. Usa palavras que não conheço. Tem gírias próprias. Brinca com a lingua, inventa expressões, faz rimas por prazer. Conta coisas divertidas, histórias cheias de vai e vem. Cede de bom grado aos meus pedidos de detalhes. Ela é cheia de vida. Ao longo da conversa, descubro que ela adora jogar jogos de tabuleiro, caminhar nas montanhas, cantar com as pessoas que ama. Faz psicanálise já há alguns anos. Deita no divā. Acha isso bizarro, falar de si mesma em um silêncio glacial. Mas retorna ainda assim, considera importante. Duas vezes por semana. Às vezes três."

"No restaurante coreano, ela fala tanto que o garçom volta para anotar o pedido pelo menos três vezes. Ela nunca está pronta. Diz que não sabe escolher, que isso é um problema na vida. Que ela quer tudo e seu contrário."

"Aos quinze anos, Sarah pedia carona na Paris afônica porque queria que a levassem ao fim do mundo. É o que imagino e o que retenho na memória."

"Ela esboça um gesto muito sutil, um passo para trás, como um movimento de dança, quase sorri quando eu balbucio ah é, eu não sabia. Ela diz que vai fumar um segundo cigarro, para celebrar isso, sua audácia, sua coragem, o fósforo estala na noite, o cheiro do enxofre se torna para sempre o cheiro da confissão que traz alívio, o cheiro da realidade inexprimível por fim revelada, o cheiro da verdade despida, posta na mesa, colocada diante de mim como um presente."

"Sarah é isso, sua beleza misteriosa, seu nariz frágil de delicada ave de rapina, seus olhos como pedras, verdes, não, verdes não, seus olhos de uma cor insólita, de serpente de pálpebras caídas. Sarah é isso, Sarah o entusiasmo, Sarah a paixão, Sarah o enxofre, Sarah o momento preciso em que o fósforo estala, o momento pre-ciso em que a ponta de madeira se torna fogo, em que a faísca ilumina a noite, em que do nada jorra o ardor. Esse momento preciso e minúsculo, essa mudança de apenas um segundo. Sarah é isso, Sarah de símbolo S."

"Seu perfume. Seu odor. Sua nuca. Seus cabelos. Suas mãos. Seus dedos. Suas nádegas. Suas panturrilhas. Suas unhas. Seus lóbulos da orelha. Suas pintas. Suas coxas. Sua vulva violino. Seus quadris. Seu umbigo. Seus mamilos. Seus ombros. Seus joelhos. Suas axilas. Suas bochechas. Sua língua."

" Amor com uma mulher: uma tempestade."

"Ela usa palavras vulgares, que desconheço. Eu as integro no meu vocabulário. Ela cola seus seios nos meus assim que ficamos a sós, e me aperta até quase sufocar, como se quisesse que fôssemos um só corpo."

"Nessa tempestade, ela é capitã de navio. Eu me torno mulher de marinheiro."

    • 19/12

"É isso, Sarah é isso, Sarah a desconhecida, Sarah a moça correta, Sarah a senhorita prudente, Sarah a mulher imprevisível, Sarah a mulher bizarra. Sarah a mulher sozinha."

"Ela é tão bela quanto os nus de Bonnard. Tão rosa e amarela quanto os seus rosa e amarelos, tão comovente quanto as mulheres que ele pinta, igualmente delicada e igualmente frágil. Ela poderia ser minha modelo se eu soubesse pintar. Ela posaria para mim, em todos os tipos de luzes, ela seria ainda mais bela que nos quadros anteriores. Seria a mulher ideal, a mulher tenebrosa e esplêndida, um icone."

    • 23/12

"Ela não percebe que estou exausta dessa vida que ela me propõe, dessa vida que vai rápido demais e à qual ela não quer se entregar por completo, de sua instabilidade, sua incerteza, seus abandonos e seus caprichos, seus rompantes de princesa."

"Sarah é isso, imprevisível, instável, desconcertante, versátil, aterro-rizante como uma mariposa."

"Não há uma maldita vitrine, um maldito café, um maldito refrão, uma maldita faixa de pedestre, uma maldita cor de céu, um maldito cinema, um maldito perfume, um maldito mendigo que você não tenha assombrado, bruxa?"

dec 18 2025 ∞
dec 23 2025 +