• tw: abandono parental, relacionamento materno sufocante, manipulação emocional e negligência emocional.

Quem encontra Hazel pela primeira vez costuma usar a mesma palavra: tranquila. Não porque seja fácil entendê-la, mas por não parecer haver nada fora do lugar. Como se ela ocupasse o espaço sem precisar preenchê-lo. E quase sempre, ouve mais do que fala.

Filha única de uma mãe que amou demais e de um pai que nunca ficou tempo suficiente, ela cresceu numa casa grande demais para duas pessoas em Kensington, Londres. Seo Jinho era do tipo de pai que aparecia em fotos de família com o sorriso certo no momento certo; presente nas ocasiões que importam para a reputação e ausente nas que importavam para ela. Sua mãe compensava com a única moeda que conhecia: atenção em excesso. Ligava três vezes por dia e dizia “você é tudo que eu tenho” com frequência demais para uma criança pequena.

Quando o pai saiu de vez, ela tinha sete anos. Não houve portas batendo, pratos quebrados ou despedidas memoráveis. Ele apenas se tornou menos frequente até virar silêncio. Hazel percebeu antes da mãe, notou a gaveta vazia no escritório, os ternos faltando do armário, a forma como ninguém mencionava seu nome no café da manhã. Entendeu, ainda criança, que as perdas mais eficazes acontecem devagar. Quando todos percebem, já terminaram.

A guitarra surgiu em sua vida aos onze anos. Estava esquecida num canto da casa, entre caixas que ninguém abria, esquecida por um pai que levou quase tudo, exceto o que não cabia na narrativa de homem ocupado. Hazel limpou o pó das cordas e tentou reproduzir uma melodia que ouvira no rádio. Errou durante horas. Voltou no dia seguinte. E no seguinte. Gostava da disciplina silenciosa do instrumento. Cordas respondiam melhor que pessoas: se apertadas do jeito certo, entregavam exatamente o que prometiam.

Quando sua mãe descobriu, pagou os melhores professores que o dinheiro encontrava. Hazel aprendeu técnica, teoria, postura e repertório. Ficou melhor do que o necessário, mas nunca deixou de tocar sozinha, tarde da noite, do jeito que aprendera antes de alguém lhe dizer como deveria ser feito.

Na escola, era a aluna que os professores descreviam como uma criança que aprendeu cedo a não dar trabalho. Tinha amigos suficientes para parecer sociável e distância suficiente para nunca depender deles. Sabia ouvir segredos sem oferecer os seus. Percebia quem mentia, quem queria ser amado, quem confundia atenção com interesse. As pessoas costumavam revelar muito quando se sentiam seguras.

Houve alguns namoros curtos na adolescência. Garotos gentis, previsíveis, convencidos de que haviam sido escolhidos por acaso. Ela gostava do início: a fase em que alguém tenta impressionar e, sem notar, se expõe inteiro. Perdido esse momento, perdia também o interesse, terminava com delicadeza suficiente para que saíssem culpando a si mesmos.

Aos dezenove anos, Hazel já tocava melhor que a maioria dos músicos que conhecia e confiava menos nas pessoas do que a maioria dos cínicos. Londres, no entanto, começou a parecer um cenário onde todos repetiam falas antigas. Sua mãe a sufocava com planos, o pai, reaparecido por mensagens esporádicas, oferecendo ajuda financeira com a impessoalidade de um banco.

Foi ele que sugeriu Seul, uma universidade boa, um apartamento já resolvido e contatos úteis, sem um pedido de desculpas. Hazel aceitou após meses pensando se realmente deveria tentar. Disse à mãe que queria independência. Disse ao pai que apreciava a oportunidade. As duas coisas eram verdade. A verdade principal, porém, era outra: queria descobrir quem seria num lugar onde ninguém conhecesse a versão antiga dela.

Seul a recebeu com vidro, luz e velocidade. O apartamento fornecido pelo pai era impecável e sem alma. As ruas eram cheias; os dias, barulhentos; as noites, silenciosas demais. Pela primeira vez em anos, ninguém sabia seu nome, seus hábitos ou o tipo de expressão que antecedia seu tédio. Na terceira semana, sem sono e sem vontade de falar com ninguém que já a conhecesse, Hazel baixou um aplicativo chamado Heartify.

apr 24 2026 ∞
apr 24 2026 +