|
bookmarks:
|
| main | ongoing | archive | private |
FAMÍLIA:
Divorciado há 2 anos, ainda está descobrindo como funciona a curiosa logística de ser pai quando as filhas já não moram na mesma casa. Não é que tenha deixado de existir uma família; ela apenas ganhou dois endereços, duas geladeiras, dois calendários e uma quantidade quase absurda de mensagens para decidir quem busca quem, quem paga o quê e qual das meninas vai dormir onde.
Tem duas filhas, uma de 21 e outra de 17, e ambas continuam sendo sua maior prioridade. O divórcio foi complicado como qualquer divórcio consegue ser, especialmente quando existem duas décadas de história envolvidas, mas nunca chegou a transformar os dois em inimigos. Ele e a ex-esposa simplesmente deixaram de ser um casal muito antes de oficializarem a separação. Por mais de dez anos, foram duas pessoas extremamente ocupadas tentando administrar trabalho, casa e filhas enquanto o romance ficava sempre para depois.
Hoje, não são exatamente melhores amigos. Conversam, combinam responsabilidades, discutem alguma decisão sobre as filhas e seguem cada um para seu lado. Funciona.
DIVÓRCIO:
O primeiro ano foi o pior.
Não pela separação em si, mas porque a filha mais nova decidiu que não queria falar com nenhum dos dois. E, para alguém que sempre acreditou que o maior trabalho de uma família era permanecer uma família, assistir a própria filha fechar a porta emocionalmente foi uma experiência particularmente difícil.
Não tentou comprar o perdão dela, nem transformar a situação em uma discussão baseada em razão. Deixou que ela tivesse raiva, espaço e tempo. A reconciliação veio aos poucos, primeiro através de mensagens curtas, depois de almoços em família que tinham toques de reuniões diplomáticas e, eventualmente, pela volta da rotina. Hoje, ela fala com os dois normalmente — embora ainda tenha opiniões muito fortes sobre como os pais deveriam ter resolvido de outra maneira.
RYUNIQUE:
É o funcionário mais antigo do Ryunique e provavelmente uma das poucas pessoas que ainda consegue lembrar como era a cozinha antes de se transformar na operação que é hoje. Começou como assistente enquanto estudava, aprendendo a rotina de uma cozinha profissional aos poucos, entre preparações, cortes, louça e toda a parte pouco glamourosa que ninguém pensa quando imagina alta gastronomia.
Subiu para posições de maior responsabilidade conforme os anos passaram, tornou-se sous-chef e, aos 33, assumiu a cozinha como chef. Não foi uma promoção inesperada, tampouco uma daquelas histórias de talento descoberto da noite para o dia. Ele simplesmente se dedicou. Aprendeu, estudou, errou, repetiu e, quando percebeu, já conhecia o restaurante melhor do que ninguém.
Hoje, continua tratando a cozinha como um lugar sagrado. Trabalho, sim, mas sagrado. É exigente, especialmente com organização e técnica, mas não tem interesse em criar uma equipe que tenha medo dele. Para ele, uma cozinha boa é aquela em que todos sabem o que estão fazendo e ninguém precisa gritar para provar que está no comando.
EDUCAÇÃO:
Nunca deixou a formação de lado depois que conquistou suas principais conquistas. A rotina era péssima para conciliar com qualquer coisa que não fosse dormir, mas ele insistiu. Estudou gastronomia enquanto trabalhava e foi construindo sua especialização de maneira bastante prática, buscando entender não apenas a cozinha coreana, mas como suas bases poderiam conversar com técnicas francesas.
Com o passar dos anos, especializou-se justamente nessa ponte entre as duas tradições: fermentações, caldos, técnicas de cocção, molhos e apresentações mais delicadas sem perder aquilo que torna a comida coreana reconhecível. Também se tornou particularmente interessado em ingredientes sazonais e na forma como vinhos podem acompanhar sabores que, tradicionalmente, não costumam ser pensados para harmonização oriental.
Não é o tipo de chef que passa horas falando sobre a própria culinária. Se alguém perguntar, provavelmente vai explicar o prato, apontar o que poderia ter sido melhor e engajar com outro tópico.
RELACIONAMENTOS:
Aos 44, descobriu que ser solteiro é muito diferente quando você já foi casado por mais de duas décadas.
Não tem pressa para encontrar outra pessoa, tampouco sente que precisa provar para alguém que conseguiu “seguir em frente”. A ideia de voltar a sair, marcar encontros e descobrir como funciona o mundo dos relacionamentos depois dos quarenta parece mais cansativa do que romântica. Talvez um dia. Hoje, não.
Também não vê o divórcio como uma tragédia pessoal. Perdeu uma esposa, sim, mas não perdeu as filhas, os amigos, o trabalho ou a própria vida. O casamento terminou porque já não existia ali o relacionamento que deveria existir, e permanecer apenas pela duração da história compartilhada sempre pareceu uma forma particularmente cruel de desperdiçar os anos futuros.
Está, portanto, solteiro. Não necessariamente disponível.
PRESENTE:
Ainda não sabe muito bem o que fazer com tanto espaço.
Durante anos, sua vida foi organizada ao redor de horários de escola, reuniões de pais, aniversários, supermercado, trabalho, refeições em família e inevitável confusão para quem chegasse em casa primeiro. Agora existe uma geladeira que pertence somente a ele, uma sala que permanece arrumada por mais de dois dias e noites em que ninguém pergunta a que horas vai voltar.
Às vezes, gosta. Às vezes, estranha.
Aprendeu a cozinhar para quatro pessoas e agora cozinha apenas para uma. Descobriu que comprar em pequenas quantidades é muito mais difícil do que deveria e que fazer jantar apenas para si mesmo parece um desperdício depois de passar a vida inteira trabalhando com comida. Ainda manda, religiosamente, mensagens para as filhas perguntando se já comeram, mesmo quando sabe que elas são perfeitamente capazes de alimentar a si mesmas.
No fim, está aprendendo a gostar da própria companhia.