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tw: abandono parental, pobreza, envolvimento criminal e tráfico de drogas.
Em uma casa onde roupa nova era luxo, Xu Juxian aprendeu cedo que quase tudo podia durar mais um pouco. Cresceu em Guangzhou ao lado do pai e, principalmente, de uma tia paterna que acabou assumindo boa parte de sua criação depois que a mãe foi embora quando ela ainda era pequena demais para compreender completamente o abandono. As lembranças daquela mulher permaneceram fragmentadas entre fotografias antigas, um perfume que já não sabia nomear e perguntas que ninguém dentro de casa parecia disposto a responder. O pai trabalhava longas horas no setor de logística e transporte, chegando quase sempre cansado demais para participar da rotina da filha, enquanto a tia transformava praticidade em uma forma silenciosa de afeto. Foi ela quem ensinou Juxian a fazer bainhas, trocar zíperes e remendar tecidos, não por qualquer interesse em moda, mas porque comprar outra peça raramente era uma opção. Durante muito tempo, costurar significou apenas fazer o pouco que possuíam durar até o mês seguinte.
O interesse por moda surgiu quase por acaso, quando uma cliente da tia esqueceu uma revista antiga entre as roupas deixadas para ajustes. Juxian passou dias folheando aquelas páginas, intrigada por editoriais que pareciam pertencer a uma realidade completamente distante da sua. Logo começou a procurar outras edições descartadas em bancas, salões e mercados de usados, montando pequenas pilhas que escondia dentro do quarto. À medida que crescia, as imagens deixaram de ser apenas uma curiosidade. Tornaram-se referências para tudo o que não tinha dinheiro para comprar. Passava tardes garimpando roupas baratas em mercados de rua e noites desmontando peças sobre a mesa da cozinha, trocando botões, tingindo tecidos e alterando modelagens até que algo comum se aproximasse do visual que havia imaginado. A família via aquela obsessão com certa desconfiança, especialmente quando começou a customizar o uniforme da escola, voltar para casa com roupas que consideravam extravagantes e gastar o pouco que recebia em peças usadas. Para Juxian, porém, moda nunca significou apenas aparência. Era a primeira coisa em que conseguia transformar falta em possibilidade.
O talento acabou chamando atenção além do círculo de amigas e colegas. Pequenas encomendas de ajustes e customizações passaram a complementar a renda da casa, até que surgiram pedidos que exigiam mais discrição do que criatividade. No início, pareciam alterações comuns: modificar o caimento de um casaco, substituir um forro ou recuperar uma bolsa antes que fosse colocada novamente à venda. Aos poucos, passaram a chegar artigos que não eram exatamente o que diziam ser. Pediam que corrigisse acabamentos, substituísse ferragens, envelhecesse materiais novos ou tornasse réplicas de luxo convincentes o bastante para atravessar mãos menos cuidadosas.
O pagamento era alto demais para o trabalho solicitado, mas Juxian preferiu não questionar enquanto o dinheiro ajudava nas contas. Só percebeu a dimensão daquilo quando entendeu que alguns dos clientes que passavam pela sua porta tinham interesses muito maiores do que roupas. Assustada com a facilidade com que atravessara aquela linha, tentou se afastar depois que o pai descobriu. A discussão entre os dois terminou com uma promessa de que não voltaria a aceitar aquele tipo de serviço. Durante algum tempo, cumpriu.
A situação mudou quando o pai perdeu o emprego e as contas começaram a se acumular com uma rapidez que o salário da tia já não conseguia acompanhar. Juxian voltou a procurar os mesmos contatos, dessa vez sem a ingenuidade de antes. Sabia que o dinheiro vinha de operações maiores do que as peças entregues em sua porta e passou a impor limites que, embora frágeis, ainda lhe permitiam justificar as próprias escolhas. Não participava de cobranças, violência ou negociações diretas. Trabalhava com artigos de luxo, falsificações e alterações quase invisíveis, convencendo a si mesma de que aquilo a mantinha distante do pior. A verdade era menos confortável.
> ᨐฅ ⋆.˚ ༄: Mesmo sem conhecer toda a extensão do que acontecia ao redor, suas mãos facilitavam negócios que dependiam justamente da discrição que havia aprendido a dominar.
A possibilidade de deixar a China surgiu quando conquistou uma bolsa parcial para estudar Fashion Business em Londres. Aceitar significava afastar-se da tia, assumir despesas que a bolsa não cobria e começar do zero em uma cidade onde mal conhecia alguém. Ainda assim, recusá-la parecia admitir que as revistas, as roupas transformadas e todas as noites passadas aprendendo sozinha nunca haviam levado a lugar algum. Londres não foi escolhida como fuga, mas como a primeira decisão que parecia pertencer inteiramente a ela. O dinheiro guardado através das encomendas clandestinas ajudou a comprar a passagem e sustentar os primeiros meses, mas Juxian chegou determinada a não procurar aquele tipo de trabalho outra vez.
Foi também durante o começo de sua vida no Reino Unido que “Jules” passou a substituir Juxian nas apresentações. Inicialmente, era apenas uma adaptação prática para pessoas que tropeçavam no nome ou sequer tentavam pronunciá-lo corretamente. Depois virou hábito. Juxian permaneceu ligada à China, à voz da tia durante as chamadas e a uma adolescência que preferia manter distante. Jules era a jovem que estudava moda, morava em Brixton e trabalhava restaurando peças vintage na Jiefen Vintage & Boba, em Harmony Square.
O emprego na Jiefen acabou se tornando mais importante do que esperava. Restaurar tecidos danificados, recuperar forros antigos e devolver estrutura a peças esquecidas parecia uma extensão natural de tudo o que aprendera por necessidade. Ao mesmo tempo, a faculdade ampliava seu entendimento sobre tendências, comportamento de consumo, branding e mercado de luxo, oferecendo linguagem profissional para conhecimentos que havia desenvolvido de maneira improvisada durante a adolescência. Por alguns meses, acreditou que poderia viver apenas entre aulas, roupas antigas e a versão cuidadosamente montada de si mesma que oferecia a Londres.
A bolsa, porém, nunca cobriu tudo. O salário da loja pagava parte do aluguel e das despesas, mas as mensalidades restantes, materiais do curso e o dinheiro que continuava enviando para a tia deixavam pouco espaço para imprevistos. Foi nesse intervalo entre o que ganhava e o que precisava que Harmony Square começou a mostrar uma face diferente daquela das lanternas e vitrines antigas.
Jules não conhecia ninguém da rede com a qual havia trabalhado em Guangzhou. A organização que a encontrou em Londres era outra, estabelecida muito antes de sua chegada e dona de hierarquias que não atravessavam o oceano junto dela. O que se repetiu não foram as pessoas, mas o interesse. Alguém soube que a restauradora da Jiefen conhecia artigos de luxo melhor do que muitos vendedores, conseguia reconhecer falhas em uma réplica quase imediatamente e possuía experiência suficiente para corrigir aquilo que denunciava uma falsificação. Os primeiros pedidos vieram de maneira discreta: uma bolsa que precisava parecer legítima, um casaco de edição limitada que deveria voltar ao mercado sem levantar perguntas, peças cujo valor dependia mais da aparência de autenticidade do que da própria origem.
A Heidao oferecia o tipo de dinheiro que transformava uma mensalidade atrasada em problema resolvido. Parte das despesas da faculdade passou a ser coberta através daqueles serviços, embora jamais existisse um contrato ou acordo que pudesse ser colocado no papel. Jules dizia a si mesma que estava apenas repetindo algo que já conhecia. Restaurava, modificava e devolvia. Não perguntava quem vendia, quem comprava ou para onde as peças seguiam depois de deixar suas mãos.
A natureza das encomendas mudou gradualmente. Primeiro apareceram roupas acompanhadas por pequenos pacotes que não faziam parte da restauração. Depois vieram instruções para que determinadas peças fossem preparadas para carregar algo sem chamar atenção. Jules não vendia diretamente para consumidores e raramente conhecia os destinatários.
> ᨐฅ ⋆.˚ ༄: Seu papel terminava quando integrantes da organização apareciam para buscar sacolas de “roupas” destinadas a clientes especiais. Eram encontros breves, quase sempre fora do horário da Jiefen, tratados com a naturalidade desconfortável de quem esperava que ela já soubesse não fazer perguntas.
Aquilo ultrapassava os limites que havia criado em Guangzhou. Antes, conseguia se convencer de que trabalhava apenas com falsificações e mercado paralelo. Em Londres, as peças que passavam por sua bancada começaram a participar diretamente do tráfico de drogas operado pela facção. Ela tentou recusar os primeiros pedidos, mas descobriu que o dinheiro recebido para a faculdade não era exatamente ajuda desinteressada. Cada pagamento anterior havia construído uma dívida informal, e a possibilidade de simplesmente se afastar desapareceu antes que percebesse que existira.
Ainda assim, Jules permanece longe da venda direta, das cobranças territoriais e da violência que sustentam a Heidao. Não acompanha entregas e evita saber nomes. Recebe roupas, faz o trabalho solicitado e aguarda que alguém venha buscá-las. A distância lhe permite continuar fingindo que ocupa apenas uma posição periférica, embora entenda que essa distinção perde sentido cada vez que fecha uma costura sobre algo que nunca deveria estar ali.
Atualmente, grande parte de sua vida ainda acontece entre a faculdade e a oficina da Jiefen. Jules acompanha coleções, pesquisa tendências e garimpa peças com o mesmo entusiasmo de quando era adolescente, ainda que hoje possua muito mais conhecimento sobre o mercado que antes observava apenas através de páginas usadas. Continua enviando dinheiro para a tia e mantém as chamadas entre as duas cuidadosamente preenchidas por histórias verdadeiras sobre aulas, clientes difíceis e o clima de Londres. Apenas deixa de mencionar as falsificações, os encontros tardios e as sacolas que desaparecem dos fundos da loja antes do amanhecer.
Apesar de tudo, ainda imagina um futuro inteiramente ligado à moda. Não sonha necessariamente com fama ou com uma grande marca, mas com a liberdade de viver do próprio trabalho sem precisar calcular o que cada oportunidade exige em troca. Talvez abrir um pequeno estúdio de restauração, transformar peças esquecidas e criar algo que carregue seu nome sem que ele precise ser simplificado para ninguém. O problema é que concluir a faculdade, construir essa carreira e permanecer em Londres dependem parcialmente do mesmo dinheiro que torna esse futuro cada vez mais difícil de considerar verdadeiramente seu.
De vez em quando, quando a Jiefen já está vazia, permanece alguns minutos observando uma peça recém-restaurada antes de devolvê-la ao cabide. Gosta da ideia de que alguém voltará para buscá-la sem nunca perceber quantas alterações foram necessárias para fazê-la parecer inteira outra vez. Talvez seja por isso que tenha permanecido tanto tempo naquele ofício. Jules sempre acreditou que quase tudo podia ganhar uma segunda vida. Apenas ainda não descobriu quantas partes de si precisará esconder para alcançar a própria.