tw: abandono parental, pobreza, envolvimento criminal e tráfico de drogas.

Xu Juxian nunca escolheu aprender a costurar. Cresceu em Guangzhou em uma casa onde roupa nova era um luxo que raramente cabia no orçamento. Depois que a mãe foi embora, foi criada principalmente pela tia paterna enquanto o pai passava boa parte dos dias trabalhando para sustentar a casa. A tia complementava a renda fazendo pequenos ajustes e consertos para vizinhos, e Juxian cresceu entre linhas, retalhos e tecidos, aprendendo que quase tudo podia ganhar uma segunda vida nas mãos certas. O que começou como necessidade acabou se tornando talento.

Com o tempo, deixou de apenas consertar roupas e passou a transformá-las. Comprava peças baratas em mercados de rua, desmontava modelagens, alterava cortes e reconstruía aquilo que chamava sua atenção. Os primeiros pedidos vieram naturalmente, primeiro de conhecidos, depois de desconhecidos. Pequenas customizações deram lugar à restauração de bolsas, recuperação de artigos de luxo e, eventualmente, à reprodução de peças que não deveriam existir. Ela sabia que havia ilegalidade envolvida, mas nunca conheceu quem realmente lucrava com aqueles serviços. Enquanto o dinheiro ajudava a aliviar as dívidas acumuladas pelo pai, convenceu-se de que trabalhava apenas com linhas e tecidos.

Quando conquistou uma bolsa parcial para estudar Fashion Business em Londres, enxergou ali a oportunidade de recomeçar. A mudança significava deixar para trás não apenas Guangzhou, mas também o tipo de trabalho que havia aprendido a aceitar por necessidade. Foi também na Inglaterra que Juxian passou a se apresentar como Jules, um apelido que começou para facilitar apresentações e acabou se tornando a identidade que construiu do outro lado do oceano.

A rotina em Londres esteve longe de ser simples. Entre as aulas da faculdade e as contas que não paravam de chegar, Jules passou por diferentes empregos temporários, trabalhando como balconista e atendente em estabelecimentos que pouco tinham a ver com suas ambições. Durante meses, procurou uma oportunidade que a aproximasse daquilo que realmente gostava de fazer, até finalmente conseguir uma posição como gerente no Jiefen, o brechó pelo qual já nutria um carinho especial. Pela primeira vez em muito tempo, encontrou satisfação em um trabalho que não servia apenas para pagar as contas. Entre peças vintage, tecidos e histórias preservadas em roupas de segunda mão, sentia que podia colocar em prática aquilo que havia aprendido ao longo dos anos. E, embora as noites continuassem ocupadas por encomendas que preferia não aceitar, havia algo reconfortante em passar os dias fazendo parte de um lugar no qual realmente acreditava. Depois de tanto tempo costurando para sobreviver, começava a enxergar, ainda que timidamente, a possibilidade de construir o futuro que sempre imaginara.

A ilusão de que conseguiria se sustentar apenas com trabalhos legítimos, porém, durou menos do que esperava. A bolsa cobria apenas parte da universidade e, entre aluguel, transporte, materiais e o dinheiro que ainda enviava para a tia na China, as contas começaram a apertar. Foi um colega da faculdade quem comentou, sem imaginar as consequências, que conhecia pessoas em Harmony dispostas a pagar muito bem por alguém capaz de restaurar artigos de luxo sem deixar rastros. Jules aceitou o primeiro serviço acreditando que seria apenas mais uma restauração.

Vieram outros. Depois réplicas. Depois clientes diferentes.

Quando percebeu, já não trabalhava para colecionadores, mas para pessoas ligadas à Heidao.

No início, nada parecia muito diferente do que fazia em Guangzhou. Restaurava bolsas, reproduzia acabamentos e corrigia detalhes capazes de denunciar uma falsificação. O dinheiro resolvia problemas que seus empregos convencionais jamais conseguiriam resolver, e ela preferiu acreditar que aquilo ainda estava sob seu controle. As encomendas, porém, mudaram aos poucos. Algumas peças passaram a exigir forros duplos, barras mais pesadas e compartimentos escondidos entre camadas de tecido. Jules nunca via o conteúdo antes de fechar a última costura, mas deixou de acreditar que aquilo transportava apenas roupas havia muito tempo.

Ela tentou recusar quando entendeu que aqueles compartimentos serviam ao tráfico operado pela organização. Descobriu tarde demais que favores também criam dívidas. A Heidao não precisava ameaçá-la para lembrá-la de quanto dinheiro já havia passado por suas mãos. Desde então, seu papel permanece o mesmo: recebe as peças, faz o trabalho solicitado e as entrega para quem vem buscá-las. Nunca participa das vendas, das cobranças ou da violência. Ainda assim, sabe que a distância entre esconder um segredo e fazer parte dele é muito menor do que gostaria.

Hoje, Jules divide a vida entre dois mundos. Para a maioria das pessoas, é a jovem estudante de moda que, depois de passar por empregos que nunca lhe ofereceram muito além de um salário, finalmente encontrou seu lugar como gerente do Jiefen. Para poucos, é alguém cujas mãos sabem esconder muito mais do que linhas e tecido. Ainda assim, continua alimentando o mesmo sonho que nasceu anos atrás, sentada ao lado da tia diante de uma máquina de costura: viver do próprio trabalho, abrir um pequeno ateliê e usar seu talento para criar, não para esconder. O Jiefen não representa o fim de suas dificuldades, tampouco a liberdade que ainda procura, mas lhe oferece algo que havia começado a perder entre tantas obrigações e noites mal dormidas: esperança. Porque, no fundo, Jules nunca sonhou em ficar rica. Só queria viver em um mundo onde ninguém pagasse mais para esconder alguma coisa do que para criá-la.

aug 5 2026 ∞
nov 2 2026 +