• tw: conflito familiar, menção à homofobia, ansiedade/ataque de pânico (brevemente).

o que era pra ter sido só um bico, com o tempo acabou se tornando sua profissão.

a oficina improvisada na garagem de casa era mais pra uso próprio mesmo, mas sempre apareciam alguns amigos, conhecidos, vizinhos, moradores de outras áreas do condomínio, precisando de servicinhos aqui e ali. e, bom, por que não se aproveitar da oportunidade, né?

o fato de ser um completo apaixonado por automobilismo, em especial por carros modificados, só ajudou a manter a oficina agora funcionando a todos motores. era uma ótima fonte de renda, já que o que ganhava com os rachas usava principalmente pra manter a oficina rodando e comprando peças novas pro seu carro.

nascido liwei, cresceu com uma colher de prata na mão e outra na boca, teve todas as regalias que a família wu poderia dar. ele não era rico, mas seus pais eram. muito. filho mais novo do casal de políticos influentes de beijing, o chinês era o único que destoava do restante da família que pensava ser dona de tudo e todos na grande metrópole. seu irmão mais velho por 2 anos parecia ter nascido pra esse tipo de vida, enquanto desde cedo liwei lutava contra si mesmo pra tentar se encaixar naquela família que parecia perfeita. e só parecia mesmo, porque no convívio familiar, por trás dos holofotes, flashes e headlines, era difícil esconder as inúmeras puladas de cerca do pai e do alcoolismo crescente da mãe.

não levou muito tempo, já na adolescência, pra perceber o quão esnobes e arrogantes os pais eram. desde o tratamento que os empregados da casa recebiam, quanto aos planos futuros pra áreas menos desenvolvidas da cidade, o único foco eram os lucros que teriam, e se tivessem que tirar centenas de famílias de suas casas, isso era apenas uma consequência — um preço a se pagar, apenas por estarem vivos e, aos olhos dos wu, em seu caminho. foi aí que iniciou a sua “fase rebelde” como chamavam, mas nada mais era do que o próprio desenvolvimento enquanto pessoa ficando cada vez mais evidente e contra tudo o que pensavam ser melhor pro caçula.

nessa altura do campeonato, todos que conviviam mais de perto com os wu já estavam bem cientes que a secretária de seu pai era, na verdade, sua amante de anos, com quem tinha uma filha 5 anos mais nova. extremamente preocupada com a visão alheia, a mãe de liwei não soube lidar com a crescente falta de vergonha na cara do marido que já não fazia muito mais questão em levá-la às viagens de trabalho. seu irmão parecia ignorar a própria mãe dentro de casa, sendo o bom e perfeito primogênito de quem o pai tanto se orgulhava. era quase bizarro como os dois se pareciam tanto, fisicamente e em personalidades ㅡ ou no quanto os dois reclamavam e criticavam as exatas mesmas coisas em wei. os cortes de cabelos, a mudança constante no visual era uma forma de escape do chinês e era claro que isso chamava a atenção, ainda mais vindo de uma família tão “tradicional e conservadora” aos olhos da mídia ㅡ se soubessem o circo que era realmente…

no que dependesse deles, o garoto teria sido moldado perfeitamente pra seguir os passos do pai, primeiro se integrando na socialite, apenas um troféu pra ser exibido nos eventos e, futuramente, como um político novato fechando contato com outra família influente que babava ovo pro seu pai.

porém, onde o chinês realmente sentia que se encaixava, era na noite. fugia escondido de casa pra passar a madrugada fora com amigos, bebendo e indo em festas, até o fatídico momento que conheceu os rachas. a paixão secreta por carros deixou de ficar escondida e logo estava tão envolvido nesse meio, que participava das corridas também. aprendeu muito ali nos anos que se passaram, desde a pilotar, mexer em motores, fazer modificações e afins.

quando finalmente descobriram no que estava metido, a preocupação maior foi com como isso poderia afetar a carreira política do patriarca e o noivado arranjado que sequer tinham perguntado pra si se queria. liwei ter se assumido panssexual só piorou as coisas. carrega até hoje em seu peito as palavras cruéis que eles lhe disseram, jogando em sua cara que ele era a vergonha da família e que o preferiam morto. tudo que ele queria era um mínimo de aceitação, era se sentir pertencente entre eles, mas tudo que teve foi ódio, repulsa, desrespeito. as brigas constantes, cada vez mais desrespeitosas e violentas, chegando ao ponto de ter sido mantido preso em casa e seguido por um segurança 24/7, foram a gota d’água. não tinha condições de continuar mais ali ㅡ na real, seu pai nem permitiria depois de ter o deserdado o mais rápido possível. apenas esperando pela oportunidade perfeita, arrumou suas coisas e deu no pé, fugido.

tudo que tinha era seu carro e umas mochilas de roupas, ferramentas de mecânica, uma conta privada bem recheada e um bolo de dinheiro enfiado no bolso da jaqueta. teve que pedir ajuda a uns amigos pra se manter escondido por um tempo, até que pudesse ir embora de beijing. precisava, urgentemente, sair daquela cidade. os ataques de pânico e as crises de ansiedade aumentavam a cada outdoor que via do rosto de seu pai estampado pelas ruas principais.

teve também que vender o carro e recomeçar do zero quando chegou em shanghai, mas a casa que conseguiu alugar no taohua villas veio muito a calhar e, em dois anos, já tinha se adaptado tão bem à vida noturna da cidade, que tinha retornado a correr em rachas ali.

agora, depois de 6 anos, a casa já estava em seu nome, a oficina improvisada na garagem crescia cada vez mais e era dono da sua vida. ainda assim, a família continuava a assombrar e era comum que tivesse pesadelos constantes por medo de retornar a viver igual um pássaro preso numa gaiola.

tudo que queria era continuar como estava, por mais que fingisse estar tudo bem.

jun 20 2026 ∞
jun 20 2026 +