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nascida fèngyīng, teve todas as regalias que a família qiàn poderia dar. filha mais nova do casal de políticos influentes de kaohsiung, a taiwanesa era a única que destoava do restante da família que pensava ser dona de tudo e todos na capital marítima. não levou muito tempo, já na adolescência, pra perceber o quão esnobes e arrogantes os pais eram. desde o tratamento que os empregados da casa recebiam, quanto aos planos futuros pra áreas menos desenvolvidas da cidade, o único foco eram os lucros que teriam, e se tivessem que tirar centenas de famílias de suas casas, isso era apenas uma consequência — um preço a se pagar, apenas por estarem vivos e, aos olhos dos qiàn, em seu caminho. foi aí que iniciou a sua “fase rebelde” como chamavam, mas nada mais era do que o próprio desenvolvimento enquanto pessoa ficando cada vez mais evidente e contra tudo o que pensavam ser melhor pra caçula. no que dependesse deles, a garota teria sido moldada perfeitamente pra ser a mais nova integrante socialite, apenas um troféu pra ser exibido nos eventos e, futuramente, nos braços de um político novato de outra família influente que babava ovo pro seu pai.
porém, onde a taiwanesa realmente sentia que se encaixava, era na noite. fugia escondida de casa pra passar a madrugada fora com amigos, bebendo e indo em festas, até o fatídico momento que conheceu os rachas. a paixão secreta por carros deixou de ficar escondida e logo estava tão envolvida nesse meio, que participava das corridas também. aprendeu muito ali nos anos que se passaram, desde a pilotar, mexer em motores, fazer modificações e afins. quando finalmente descobriram no que estava metida, a preocupação maior foi com como isso poderia afetar a carreira política do patriarca e o noivado que sequer tinham perguntado pra si se queria. as brigas constantes, cada vez mais desrespeitosas e violentas, chegando ao ponto de ter sido mantida presa em casa e seguida por um segurança 24/7, foram a gota d’água.
apenas esperando pela oportunidade perfeita, arrumou suas coisas e deu no pé, fugida. tudo que tinha era seu carro e umas mochilas de roupas, ferramentas de mecânica, uma conta privada bem recheada e um bolo de dinheiro enfiado no bolso da jaqueta. teve que pedir ajuda a uns amigos pra se manter escondida por um tempo, até que pudesse ir embora de taiwan. teve também que vender o carro e recomeçar do zero quando chegou em hong kong, mas a casa que conseguiu alugar veio muito a calhar e, em dois anos, já tinha se adaptado tão bem à vida noturna da cidade, que tinha retornado a correr em rachas ali. o que era pra ter sido só um bico, com o tempo acabou se tornando parte de sua profissão. a oficina improvisada na garagem de casa era mais pra uso próprio mesmo, mas sempre apareciam alguns amigos, conhecidos, vizinhos, moradores de outras áreas do bairro, precisando de servicinhos aqui e ali. e, bom, por que não se aproveitar da oportunidade, né? o fato de ser uma completa apaixonada por automobilismo, em especial por carros modificados, só ajudou a manter a oficina agora funcionando a todos motores. era uma ótima fonte de renda, já que o que ganhava com os rachas usava principalmente pra manter a oficina rodando e comprando peças novas pro seu carro.
foi ali que teve o primeiro contato com alguns membros da tríade chinesa heidao, com sede em soho. conforme os laços se estreitaram mais, assim surgiu a oportunidade de uma grande mudança. novamente se desfez de tudo pra sair da cidade, mas dessa vez por sua própria vontade. as lanternas vermelhas da harmony square a faziam se sentir em casa e logo já estava trabalhando pra tríade com tráfico de drogas e rotas de fuga.
agora, 6 anos desde que foi pro reino unido, tinha um apartamento em seu nome no soho, um emprego estável como gerente no cha chaan teng wei-min, uma grana extra dos rachas e dos serviços da tríade, e era dona da sua vida. ainda assim, sua família continuava a assombrar e era comum que tivesse pesadelos constantes por medo de retornar a viver igual um pássaro preso numa gaiola. tudo que queria era continuar como estava, por mais que fingisse estar tudo bem.