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Mò Liáng 墨凉 (tinta negra).
Chinesa, restauradora de obras literárias — pinturas e artefatos culturais no Centro de Restauração e Conservação Cultural de Anhui. Fotógrafa de erotismo, retratos, cotidiano e signos, mestre de amarração de cordas kinbaku (shibari).

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Mais de 82 fotografias registradas durante o mês de janeiro. Durante minha estadia no Japão, fotografei algumas mulheres. Não havia nudez, apenas a contemplação da existência de seus corpos e faces. Tão belo quanto. As paredes me lembraram das cenas de Undo, cinematografia japonesa, e pude sentir as sensações de terra e o frio. Posso dizer que com esse fim de semana, minha agenda está totalmente livre! Finalmente. Tive muita satisfação em fotografar muitas mulheres e agradeço pela disponibilidade e interesse. Agora é época da minha mente relaxar, pois meus olhos quando fecham estão quase fazendo o barulho da câmera antiga. Se estiver rindo, peço que pare.

Vejo meu calendário, abro minha agenda e não há nada ── esquisitice. Vazio. Agradeço pela gentileza de me contatar perguntando quando minha agenda estará disponível, agora digo que estou, só me deixem descansar um pouco mais. Estou a preparar com calma novos ciclos, novos relacionamentos e uma nova forma de me sentir e estar nesse mundo. Constantemente pensamos que somos úteis ao estarmos servindo, fazendo, nos movimentando. Esqueço e renego essa ideia. Existimos e temos nosso valor nos momentos em que não estamos falando ou fazendo nada. A não-ação é a mais importante, de existir no espaço vazio sendo parte dele, como o diretor do Studio Ghibli também nos explica. Dê um tempo para si mesmo. Com naturalidade, vamos existindo. O vazio repleto de sentido chamado Ma (間), onde a quietude e singularidade habitam. Nesse mundo cheio, precisamos de um tempo onde nada acontece. Quando lembro da correria do dia-a-dia e de que temos a necessidade urgente de sermos úteis e estarmos nos movimentando, lembro das sábias palavras de Hayao Miyazaki, onde o nada é importante. Onde o nada não é sinônimo de incapacidade, futilidade ou desinteresse, mas onde podemos existir e coexistir naturalmente com nós e com os outros. Também é o estado Wu Wei (無為), o não-agir ou não-ação, proveniente da China. O sábio permanece, e justamente por não agir, nada lhe falta, de Dao De Jing. O ato de se deixar existir, sem mais nada, pois não, não precisamos. Existimos sem a necessidade de tantas coisas. Naturalmente, cada vez mais respeitosamente com nós mesmos. O corpo precisa, a mente descansa. Os estímulos vão, finalmente, embora. Pois tudo o que precisamos naquele momento é justamente o completo nada.

Ri muito durante um tempo, faço o que me é confortável, sendo uma mulher calma e ousada - às vezes até demais. Os dias estão indo bem, voltas para cima, voltas para baixo. Sinto um calor amável no peito e o conforto de outra carne. [...] Blocos diversos e minhas anotações diárias estarão disponíveis pela frente. Agora, me permito descansar, ser eu mesma. Mesmo em período de Ma ou Wu Wei, isso me permite ser eu mesma sem pressão externa. Como tirar fotografias de algo tão indomável, essência tão pura encravada no peito. Como olhos que enxergam para além da carne ou o vínculo do sexo. O vínculo com a terra na sola dos pés. A sensação de estar viva para além.

墨凉. ㅤㅤㅤ

jan 25 2026 ∞
jan 25 2026 +