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TRIGGER WARNING: Depressão pós-parto.
Disciplina, ordem e respeito. Esses eram os três principais pilares da família Li, tradicionais de Xangai, que estavam inseridos na estatística dos habitantes mais influentes dali. Foi nesse ambiente competitivo, restrito e financeiramente estável que nasceu Li Zhenyu, o primogênito esperado dos Li. E por mais que tivesse sido desejado, principalmente como alguém que seguiria os passos da família, sua chegada ao mundo foi marcada por uma tragédia. Sua mãe entrou em uma depressão profunda no pós-parto, levando-a a perder a fala e deixar para trás tudo que já fora um dia. Não se sabe ao certo o motivo, sempre evitou-se falar sobre o assunto que tornou-se um tabu dentre as paredes frias da casa. O ambiente era pesado, com um desconforto palpável, incômodo. O pai, tão sério, tornara-se mais frio e controlador, tratando de cuidar da criação de Zhenyu da melhor maneira que conseguia mesmo com os longos silêncios e tentativas de tornar o filho, como um reflexo seu. Mas o primogênito dos Li estava longe de ser um molde do pai, tinha tudo da mãe, inclusive, havia herdado o talento para os desenhos, o que causava um grande desgosto ao patriarca. Pouco a pouco, a casa deixava de ser um lar confortável.
A frustração de Zhenyu era frequentemente descontada nas aulas de Wushu, que inicialmente, foram impostas por seu pai, mas que pouco a pouco tornaram-se sua válvula de escape. Aquilo pareceu funcionar, porque enquanto seu pai enxergava as aulas como disciplina, fortalecimento físico e medalhas, Zhenyu via movimento, forma e arte. Foi na adolescência, começou a desenhar compulsivamente. Cadernos escolares, paredes escondidas do porão, folhas soltas durante a madrugada. Seus desenhos quase sempre envolviam corpos, movimentos humanos, animais mitológicos chineses e figuras fragmentadas. Para ele, a arte se tornou o único lugar em que conseguia externalizar o luto de uma mãe viva que nunca foi discutido dentro de casa.
O problema começou quando ele decidiu levar isso a sério. Quando anunciou que queria estudar artes plásticas, a reação dos pai foi devastadora, de modo que saiu de casa pouco depois de entrar na universidade ainda que não houvera um rompimento completo — era mais fácil ignorar a sua presença já que não se via no ambiente familiar. Embora fingisse indiferença, o pai frequentemente o procurava para saber se precisava de ajuda com alguma coisa. Para protegê-lo (ou para controlá-lo, como costumava dizer), o pai alugou uma casa para Zhenyu em um condomínio fechado, arcando com todas as despesas. Mora em Taohua Villas desde o ano de 2020, tendo o seu espaço e uma sensação sufocante de solidão. Atualmente, trabalha como desenhista em um estúdio de tatuagem alternativo. Ali, Zhenyu é conhecido pelos traços extremamente detalhados, inspirados em pinturas orientais, anatomia e movimentos marciais.
Ele ainda visita a família algumas vezes por ano. A casa de sua infância continua praticamente igual: limpa demais, silenciosa demais, preservada como se o tempo tivesse parado depois do ocorrido com a mãe. O quarto dela permanece fechado, de maneira que ainda permanece se comunicando com ela por meio de pequenos bilhetes deixados embaixo da porta. Ir ali tem um enorme peso emocional, dividindo-o ao pensar que parte de si deseja nunca voltar para lá, enquanto outra parte de si sabe que nunca conseguiu realmente sair.