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"o apartamento e eu, hoje, quase dez anos depois, já nos entendemos muito melhor, há cumplicidade em cada acidente doméstico, e as paredes do quarto, a cama, o ventilador de teto riram junto comigo de cada namorado que eu trouxe, riram da comédia que foram todos eles na sua completa incapacidade de ser o andré."

"joga-se no meu sofá como se o gesto pudesse ser casual. quando ela abraça uma das minhas almofadas o que ela diz sem falar é que gosta muitissímo de mim, que é minha amiga legítima, e o que eu respondo quando entrego uma taça de vinho rosé sem dizer nada é que gosto também, mas então sento do outro lado do sofá, em cima de uma das minhas pernas que é pra não sentar inteiramente, e com isso digo que não importa o quanto eu goste dela e quantos aniversários eu faça e quantas plantas nós juntas possamos manter, eu sempre vou preferir que ela não existisse, que nunca tivesse escolhido este prédio pra morar com o seu homem-orquídea que ela esqueceu secando diante da janela, e o que ela me diz quando toma uns goles e apoia a taça no chão e informa que está pensando em fazer uma torta de abóbora é que ela sabe, ela sabe disso, e que tudo bem, ela existe, é o que temos."

"[...] vergou sobre a pia num abraço escandaloso nos legumes, recolhendo o meu cultivo sob brados heroicos que eu abafei tapando os ouvidos, chorávamos exaustas no chão da cozinha meio em cima da minha barriga redonda, eu gostava deles, Madalena, estava tudo bem, eles somem sozinhos, é bonito de ver, e ela chorando mais, gotas cinza de fungos líquidos respingadas na cara, vamos juntas à feira Ana vamos escolher frutas lindas pra você, me deixa em paz Madalena vai embora."

"[...] não fossem as sílabas daquele sábado e hoje seríamos outros números, a natureza trampolinesca das proparoxítonas, diria a Madalena tão gramatical, grita-se numa sílaba e usam-se as duas finais para despencar."

"[...] ela me olhou e deve ter visto o terror na minha cara, o medo de que a figura dela instaurasse em casa os mesmos ânimos suicidas, uma mulher tão cheia de motivações, qualquer um se esgotaria, qualquer um se mataria do seu lado, Madalena, você suga para si o pouco que os fracos têm [...]"

"olho catarina às vezes como um cão olha a sua dona. um olhar de quem sabe que, se tudo der certo, deve morrer muito antes do outro. é um perigo, somos cadelas dos nossos filhos, o olhar de súplica a pata mais ou menos erguida sem coragem de completar o gesto no ar, pelo amor de deus não saia nunca daqui. a sina às vezes me inquieta, o que é que vai ficar a catarina fazendo no mundo quando eu morrer, por que é que não posso ter pra mim esses anos que vão sobrar nela, se fui eu que dei, por quê. mas é também a mais necessária das certezas, tanto eu como os cães precisamos olhar, eu para catarina e eles para seus donos, e saber que vamos morrer antes, que não vai sobrar vida para mim que seja sem ela [...]"

"tento evitar mas não consigo, sempre digo à catarina que ela parece o pai, às vezes são os defeitos, às vezes as qualidades, e ela fica conhecendo o andré conforme ela acerta ou erra dentro da medida dele. o sorriso do pai no meio do charme dos furos nas bochechas dos dois. eu sei que ela se irrita, talvez odeie o pai, que é um pai que a privou de tudo, privou-a dele e de todos os outros possíveis pais, e até de uma mãe completa [...] minha filha também não chegou a conhecer exatamente a mim, talvez ela conheça só uma coisa balanceada, que é como foi possível me reconstruir."

"[...] se ela podia entrar, se ela podia pelo menos chorar aqui onde os móveis não lhe diziam nada, e me espantei que ela também tivesse esse problema da conversa dos móveis, porque ela aqui na minha casa tinha a desenvoltura dos que não escutam as paredes as madeiras as portas, e daí me ocorreu que as casas só falam com seus moradores, feito um cachorro fiel que, ao contrário, deu-se conta de que os donos morrem muito cedo, e tão de repente."

"a barriga imensa que eu temia que estivesse absorvendo toda aquela tristeza e minha filha nasceria feito um saco de melancolia, o que eu acho que talvez tenha de fato acontecido porque a catarina tem os olhos cheios de tragédia."

oct 24 2026 ∞
oct 25 2026 +