- Quando em meu peito rebentar-se a fibra
- Que o espírito enlaça à dor vivente,
- Não derramem por mim nem uma lágrima
- Em pálpebra demente.
♡ ︎
- E nem desfolhem na matéria impura
- A flor do vale que adormece ao vento:
- Não quero que uma nota de alegria
- Se cale por meu triste passamento.
♡ ︎
- Eu deixo a vida como deixa o tédio
- Do deserto, o poento caminheiro
- — Como as horas de um longo pesadelo
- Que se desfaz ao dobre de um sineiro;
♡ ︎
- Como o desterro de minh'alma errante,
- Onde fogo insensato a consumia:
- Só levo uma saudade — é desses tempos
- Que amorosa ilusão embelecia.
♡ ︎
- Só levo uma saudade — é dessas sombras
- Que eu sentia velar nas noites minhas...
- De ti, ó minha mãe, pobre coitada
- Que por minha tristeza te definhas!
♡ ︎
- De meu pai... de meus únicos amigos,
- Poucos — bem poucos — e que não zombavam
- Quando, em noite de febre endoudecido,
- Minhas pálidas crenças duvidavam.
♡ ︎
- Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
- Se um suspiro nos seios treme ainda
- É pela virgem que sonhei... que nunca
- Aos lábios me encostou a face linda!
♡ ︎
- Só tu à mocidade sonhadora
- Do pálido poeta deste flores...
- Se viveu, foi por ti! e de esperança
- De na vida gozar de teus amores.
♡ ︎
- Beijarei a verdade santa e nua,
- Verei cristalizar-se o sonho amigo....
- Ó minha virgem dos errantes sonhos,
- Filha do céu, eu vou amar contigo!
♡ ︎
- Descansem o meu leito solitário
- Na floresta dos homens esquecida,
- À sombra de uma cruz, e escrevam nelas
- — Foi poeta — sonhou — e amou na vida.—
♡ ︎
- Sombras do vale, noites da montanha
- Que minh'alma cantou e amava tanto,
- Protegei o meu corpo abandonado,
- E no silêncio derramai-lhe canto!
♡ ︎
- Mas quando preludia ave d'aurora
- E quando à meia-noite o céu repousa,
- Arvoredos do bosque, abri os ramos...
- Deixai a lua prantear-me a lousa!
jun 23 2026 ∞
jun 23 2026 +