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A escuridão se alastrava pela terra como uma maldição premeditada no exato momento em que a recém nascida respirou seu primeiro fôlego de vida. A mãe contemplava-lhe os traços delicados, tão serenos e inocentes, com uma constatação dolorosa do desfecho que precisava impedir. A mulher sabia que jamais poderia exibir a menina tão adorável em seus braços como seu presente mais precioso; ela estava, mesmo naqueles breves minutos de existência, condenada a uma vida inteira sob as sombras do passado da mãe.
Irina não sabia como seriam os próximos anos, dias ou mesmo os minutos a partir dali, mas, naquele instante suspenso no tempo, permitiu-se demorar em sua admiração silenciosa. Carregaria aquela memória tão dócil, tão frágil, cravada em seu cerne por toda a eternidade. Lágrimas escorriam pelas bochechas avermelhadas, borrando-lhe a visão enquanto seus lábios tremiam ao profetizar o nome que, inevitavelmente, traria ao mundo tanto esplendor quanto violência.
“Corvina. Minha doce Corvina. É assim que te apresento ao mundo, pequeno corvo.”
[…]
Irina desapareceu quando Corvina tinha sete anos. Foi a primeira vez que seus dons se manifestaram. Uma tempestade desabou com desalento, traduzindo a angústia que devorava o âmago ainda inocente. A chuva manteve-se sem trégua por três noites e três dias, como se o mundo houvesse sido condenado a um luto interminável.
A governanta, já conhecedora dos presságios que rondavam aquela linhagem, preocupou-se, e tentou evitar aquela tragédia predestinada — em vão. Os anos escoaram silenciosos, e o dom intrépido não apenas permaneceu; adensou-se, tornou-se mais profundo, mais difícil de conter. Dilúvios caíam sempre que a tristeza lhe tocava o coração; o solo estremecia alarmantemente quando raiva a dominava. Os delírios tornavam-se mais violentos, mais sangrentos, a cada nova idade que aquela existência condenada alcançava.
A fúria, tão irrevogavelmente pertencente ao cerne subversivo, crescia como uma erva daninha, alimentando-se de sua vitalidade e criando raízes nos lugares mais sombrios de sua alma. Ampliou-se tanto que o pai, já incapaz de suportar o peso do desconhecido e sem saber quais novos caminhos seguir, tomou uma decisão desesperada: levou a garota para uma igreja remota, erguida longe dos olhares do pecado, e deixou-a aos cuidados do padre e das freiras que conduziam o lugar sagrado com austera confiança e doutrina, convencido de que aquelas paredes antigas pudessem conter a força destrutiva que prosperava dentro dela.
Ele não sabia, no entanto, que aqueles fiéis escondiam um segredo ainda mais misterioso que o declínio da filha. Consideravam-se rastreadores de luz, escolhidos para trazer fé ao mundo e alimentar de esperança os corações dilacerados. Tamanho milagre, porém, carecia de sangue. Para isso, era necessário um sacrifício. Precisavam sacrificar um anjo.
E na cólera gélida que se escondia por detrás dos olhos azuis safira da jovem que recepcionavam, finalmente encontraram o seu anjo.
O cordeiro sacrificial.