|
bookmarks:
|
| main | ongoing | archive | private |
A loucura tenta se instalar em meu âmago como um parasita. Sinto-a roendo meus ossos, rasgando meus órgãos, bebendo meu sangue. Encaro-me no espelho e mal reconheço o que sou; humana? Assombração? Amaldiçoada? Tenho medo de não ser real. Devo temer que a sombra atrás de mim seja real? Ou devo temer mais que não seja?
O tempo nesta capela abandonada por Deus parece seguir um percurso diferente do normal. Lento. Pausado. Um zumbido em meus ouvidos.
Tic. Tac. Tic. tac. tic. Tac. tic-tac.
Angústia me devora. Conto os dias com rabiscos nas paredes, cortes em meu corpo e palavras soltas nas páginas dos poucos livros que permitem que leiamos. Repito o meu nome cento e oito vezes por dia, temendo esquecê-lo, já que aqui sou apenas Anjo.
Anjo divino, profecia da salvação. Aquela que trará o equilíbrio e a vida eterna para aqueles que são fiéis a Jesus Cristo.
A tempestade desaba há três dias ininterruptos. Não consigo conter o que quer que rasteje sob minha pele, e toda vez que retiram meu sangue, quanto maior o meu medo, mais feroz a tempestade se torna. Ontem, quando uma das freiras veio até mim para um discurso tolo, portando-se como se a falsa empatia que escorria entre seus dentes a tornasse melhor e pura, descobri que esse dom não se limita à natureza. Observei a maneira como seus sentimentos se curvaram aos meus desejos. Vi sua fachada despedaçar-se lentamente enquanto eu mentalizava a sua corrupção vindo à tona.
Posso não ser humana, posso ser uma pecadora, mas sei que não sou a salvadora celestial que tanto pregam. Faz tempo que Deus me abandonou. Sou a filha impura e renegada, pecadora desde o meu concebimento. Não há divindade em meu sangue; apenas profanação.
E, ainda assim, fecho os meus olhos e rezo.