- AS EMOÇÕES: Primeiro, há um lugar para a emoção na experiência espiritual. O Espírito Santo é o Espírito da verdade, como vimos. Mas seu ministério não se limita a iluminar nossa mente e nos ensinar sobre Cristo. Ele também derrama o amor de Deus em nosso coração.22 Ele dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus, pois nos faz dizer: “Aba, Pai”23 e exclamar com gratidão: “Vejam como é grande o amor que o Pai nos concedeu: sermos chamados filhos de Deus, o que de fato somos!”24 Além disso, embora ainda não tenhamos visto Cristo, mesmo assim já o amamos e cremos nele, de modo que podemos exultar “com alegria indizível e gloriosa”.25 Há, é claro, muitas variedades de experiência espiritual, e não devemos tentar estereotipá-las. Também não devemos insistir que todos tenham exatamente a mesma experiência. No entanto, todos os cristãos, pelo menos de vez em quando, têm sentimentos de profunda tristeza e de profunda alegria. Por um lado, nós “gememos interiormente”, em solidariedade com a criação caída, sobrecarregados com a nossa própria queda e ansiosos pela nossa redenção final.26 Por outro, regozijamo-nos no Senhor, transbordantes de gratidão pelo grande amor com que nos amou. Segundo, há um lugar para a emoção na adoração pública. Vemos em Hebreus 12.22-24 que, quando nos reunimos para a adoração, não chegamos apenas “à igreja”, isto é, a um edifício. Pois já chegamos “ao monte Sião, à Jerusalém celestial, à cidade do Deus vivo”. Chegamos “aos milhares de milhares de anjos em alegre reunião, à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão escritos nos céus”. Chegamos “a Deus, juiz de todos os homens, aos espíritos dos justos aperfeiçoados, a Jesus, mediador de uma nova aliança, e ao sangue aspergido, que fala melhor do que o sangue de Abel”. O reconhecimento dessa dimensão cósmica transforma a adoração. Talvez apenas um punhado do povo de Deus se reunirá quando você se encontrar neste domingo, e talvez não haja muita diversidade entre vocês. Mas lembre-se, como diz o Livro de Orações de 1928, que nos reunimos “na presença do Deus todo-poderoso e de toda a companhia celeste”. E no culto de comunhão juntamo-nos com “anjos e arcanjos, e com toda a companhia celeste” em louvor ao nome glorioso de Deus. Somos transportados além de nós mesmos para a realidade eterna e invisível. Somos movidos pelas glórias de que falamos e cantamos, e nos curvamos diante de Deus em adoração humilde e alegre. Terceiro, há um lugar para a emoção na pregação do evangelho. O apóstolo Paulo usou sua mente, como vimos. Ele creu na verdade de sua mensagem. Ele levou tempo e teve dificuldades para defender, explicar, argumentar e proclamar a mensagem em sua plenitude. Mas o modo como apresentou todo o plano de Deus nunca foi frio ou árido. Pelo contrário, ele escreveu que Deus “nos confiou a mensagem da reconciliação. Portanto, somos embaixadores de Cristo, como se Deus estivesse fazendo o seu apelo por nosso intermédio. Por amor a Cristo lhes suplicamos: Reconciliem-se com Deus”27. Paulo não estava satisfeito com a mera apresentação do evangelho, ele também implorava às pessoas para responder a essa mensagem. À sua exposição sistemática, ele acrescentou um apelo pessoal urgente. E muitas vezes, ele nos diz, sua proclamação era acompanhada de lágrimas.28 Alguns pregadores são impecáveis tanto na doutrina quanto na dicção, mas nunca se inclinariam sobre o púlpito com lágrimas nos olhos, implorando que as pessoas se reconciliassem com Deus. Outros se agitam em um frenesi de excitação, implorando por uma decisão, mas nunca fazem uma apresentação cuidadosa e convincente do evangelho. Por que devemos polarizar? O que faz com que o pregador seja autêntico é a combinação da verdade e das lágrimas, da mente e da emoção, da razão e da paixão, da exposição e do apelo. O doutor Lloyd-Jones perguntou: “O que é a pregação?” E ele mesmo respondeu a sua pergunta. “Lógica em chamas! Razão eloquente! Essas são contraditórias? É claro que não são! A razão relativa a esta Verdade deve ser poderosamente eloquente [...] A pregação é teologia vindo por meio de um homem que está em chamas.”29 Quarto, há um lugar para a emoção no ministério social e pastoral. Nisto, como em todas as coisas, o próprio Jesus é o nosso modelo perfeito. É só vê-lo na sepultura de Lázaro, face a face com a realidade da morte. De acordo com as Escrituras, a morte é uma intrusão estranha no mundo bom criado por Deus e não fazia parte nem do seu propósito original nem do final. A Bíblia chama a morte de “inimigo”, na verdade, é o “último inimigo a ser destruído”30. Como, então, Jesus reagirá quando confrontado com este arqui-inimigo de Deus e da raça humana? Reagiu, surpreendentemente, com duas emoções violentas. Primeiro, ele foi movido pela raiva ou indignação. Em João 11.33,38 lemos que ele “agitou-se”, “moveu-se” (ARC) ou “ficou muito comovido” (NTLH). O verbo grego enebrimēsato (v. 33) significa que ele “bufou”; a palavra é usada literalmente para cavalos e metaforicamente para expressar indignação.31 K. Barrett, em seu comentário sobre João 11, escreve: “É inquestionável que embrimasthai implica raiva”. B. B. Warfield foi ainda mais longe: “O que João nos diz [...] é que Jesus se aproximou do túmulo de Lázaro em um estado não de tristeza incontrolável, mas de raiva irreprimível”. Por quê? Porque ele viu “o mal da morte, a sua antinaturalidade, a sua ‘tirania violenta’, como Calvino expõe”. Ele “arde de raiva contra o opressor dos homens [...] A fúria apodera-se dele; todo o seu ser está desorientado e perturbado [...] A morte é que é o objeto de sua ira e, por trás da morte, aquele que tem o poder da morte, a quem ele veio ao mundo para destruir”32. Então somos informados de uma segunda resposta emocional de Jesus, ou seja, tristeza e compaixão. Em sete ocasiões separadas nos Evangelhos, Jesus foi movido por compaixão. Ele sente compaixão, por exemplo, das multidões famintas e sem liderança, da viúva de Naim, dos leprosos e de um mendigo cego. E em João 11 lemos que “Jesus chorou” (v. 35) – agora não eram lágrimas de raiva em face da morte, mas lágrimas de simpatia pelas irmãs enlutadas. Não é belo ver Jesus, diante da morte e do luto, tão comovido? Ele sentiu indignação diante da morte e, também, compaixão para com suas vítimas. Primeiro, ele “bufou” (v. 33) e então ele chorou (v. 35). Falando pessoalmente, anseio ver mais ira cristã contra o mal no mundo e mais compaixão cristã por suas vítimas. Pensem na injustiça social e na tirania política, no assassinato insensível de fetos humanos no útero como se fossem apenas pedaços de tecido, ou na cínica maldade dos traficantes de drogas e na indústria pornográfica que fazem fortuna com as fraquezas dos outros e à custa da sua ruína. Visto que esses e muitos outros males são odiados por Deus, não deveria o seu povo reagir contra eles com ira? E quanto às vítimas do mal – os pobres, os famintos e os desabrigados, as crianças de rua abandonadas por seus pais, os fetos em risco em uma sociedade egoísta, os prisioneiros torturados de consciência e os alienados e perdidos que nunca ouviram o evangelho? Onde está o nosso sentimento de indignação? Onde está a compaixão de Jesus, que se expressará em ação prática em favor daqueles que sofrem? Não sei quanta educação cristã Bob Geldof teve, mas a sua consciência social e o seu impulso envergonham muitos de nós cristãos. O que aconteceu, então, para transformar o “desleixado cantor pop irlandês” em “São Bob”, o herói cult que alertou o mundo para o holocausto da fome na África? Assistindo a uma reportagem na televisão sobre a fome na Etiópia, no final de 1984, ele experimentou o que se poderia chamar de uma “conversão secular”. As pessoas que ele viu na tela da TV eram tão “encolhidas pela fome que pareciam seres de outro planeta”33. “Fiquei indignado, enfurecido e revoltado”, disse ele, “mas mais do que tudo isso, senti profunda vergonha”34. A partir daquela experiência vieram o Band Aid e o Live Aid, além de outras iniciativas, que levantaram muitos milhões em dinheiro. O que o levou a fazer isso? Foi uma combinação de “compaixão e indignação”.
oct 2 2026 ∞
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