Página 84 (25 de dezembro de 1887) Quando a plateia fez silêncio e comecei a declamar, não pude evitar de lembrar do meu outro recital, do Clube de Debates, e procurei Anne na plateia. Mas ela não estava. Mesmo assim, sabia que ela estaria ouvindo, e recitei. “Sobre as montanhas, sobre os pântanos – da neve Não! Mas firme e imutável sempre, a descansar No seio que amadura do meu belo amor Para sentir, e sempre, seu tranquilo arfar”

Porque é para ela. É sempre para ela.

a apresentação que vem agora é uma grande novidade. Senhoras e senhores de Avonlea e vilas vizinhas, tenho a honra de apresentar o primeiro tableau vivant da escola: As Três Graças! As cortinas se abriram e três formas apareceram, mas cobertas de sombras. A srta. Stacy anunciou: — Fé! – e a luz de um holofote iluminou Ruby Gillis, em pé bem no meio do palco. – Fé é uma estrela brilhante, mais primorosa que um diamante. Caridade! – e o holofote agora iluminou também Diana Barry, – Caridade é uma brisa fresca e doce, suave como se algodão fosse. E... Esperança! E então a luz chegou a Anne. Ela, como as outras, vestia um vestido branco, como uma leve túnica grega.

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E então, depois de um segundo onde me senti alheio do mundo, percebi seu cabelo. As madeixas ruivas de Anne chegavam até o meio das costas, e se enrolavam levemente em seus dedos. Ela olhava a plateia não como Anne, mas como se estivesse no alto do Olimpo. A professora falou mais alguma coisa, que eu obviamente não ouvi, e então as três meninas deram as mãos. Foi aí que eu finalmente lembrei. A sensação de reminiscência que eu tinha quando via Anne, desde a primeira vez? A impressão de que seu rosto estava de algum jeito gravado na minha memória em forma de uma pintura? A recordação que tive quando estava lendo hoje mais cedo? Tudo se encaixou. Eu já tinha visto aquilo antes. Em Blyth, o dr. Barrett tinha muitas pinturas em sua biblioteca, e eu passava horas as admirando. Uma delas, agora me lembro, representava justamente a cena do tableau. Uma morena, uma loura e uma ruiva, vestidos brancos, mãos dadas. Vendo que eu admirava aquela com singular atenção, o doutor um dia me disse: — As Três Graças. Aglaia, Eufrosina e Tália. É um tema comum na arte Renascentista. Este aqui foi pintado por Signori, em 1502. Uma versão mais composta da “Primavera” de Botticelli. — Como se chama a ruiva? – perguntei. — A ruiva é Tália. A Esperança. Representa as flores. Por quê? — Nunca vi uma ninfa ruiva – eu disse. O doutor riu de mim. — É claro que existem. Ninfas ruivas, deusas ruivas... Talvez algum dia você veja uma delas – ele disse, divertido. E ali estava. Anne, exatamente como no quadro que eu tinha visto. É possível passar por duas epifanias sobre a mesma coisa? Anne é minha Esperança. No meio de tudo aquilo que me vinha à mente eu nem percebi quanto tempo passou. Quando me dei conta, o tableau tinha terminado, e o último coral estava se apresentando. A música era “Noite Feliz”. Então ali, cercado da minha família e de meus amigos, ciente do sentimento que me enchia o coração, ouvindo aquela maravilhosa música numa linda noite de Natal, me senti profundamente feliz. Apenas um garoto completamente apaixonado numa pequena vila no meio do Canadá, mas profundamente feliz.

Pg 100. 9 de abril de 1888

Mas... Não sei, começar a cortejar uma garota parece bem complicado. É só chegar e... Dizer para ela? — Acho que fica mais fácil quando se é amigo da garota – Fred considerou. — Deve ser. Meu pai disse que ele e minha mãe patinaram juntos muitas vezes, como amigos, antes de falarem em casamento. — Acho que você tem que ir devagar, para não assustar a... Pretendente – Fred disse, deitado na cama e olhando para o teto enquanto imaginava. – Ser amigo dela primeiro, conhecê-la, e ir pouco a pouco deixando claro que você tem... Ah, intenções. E, quando vir que ela também tem intenções... Você faz o pedido. — Mas também não se pode exagerar na demora – eu opinei.

Bom, dizem que um pedido bem feito pode mudar tudo. Rob disse que tem até livros com pedidos de casamento prontos, e parecem infalíveis. — Quem usaria isso para pedir uma mulher em casamento? — Suponha que você quer fazer, mas não sabe como se expressar? – Fred me perguntou. — Não sei – respondi. Imaginei certas cenas por alguns instantes. – Acho que se você gosta de alguém, vai saber exatamente como dizer. E se ela gostar de você, vai aceitar, mesmo que não seja um pedido de livro. Fred ergueu um pouco a cabeça e trocamos um breve olhar. — Seria mais fácil se as garotas nos falassem o que pensam – ele disse, enfim. – Pouparia muito trabalho de adivinhação. — Acha que vamos saber a hora certa? Quando chegar o tempo, quero dizer. — Não sei. Talvez demore mais do que pensamos. Mas é muito cedo para nos preocuparmos com isso, não é?

Pg 104 29 de abril

Eu ia continuar a discutir, mas aí a pergunta ressonou. Realmente, fazia diferença para mim? Olhei para Anne de novo. Lá estava o mesmo rosto, as mesmas sardas, os mesmos olhos grandes e tão vivos. Era a mesma Anne acertando as perguntas da srta. Stacy. Lembrei do concerto de Natal, quando vi o cabelo dela solto pela primeira vez. Lembro da grande impressão que me causou, mas por quê? Era a mesma pessoa, só que por um ângulo que eu não conhecia. Sim, o cabelo longo dela é muito bonito e sei que já entrou nos meus sonhos, mas não foi só por ele que me apaixonei. Foi pela garota inteligente e bonita, de olhos verde-cinzentos que fala palavras enormes e tem a maior imaginação de Avonlea e quebrou a lousa na minha cabeça. Olhei para ela de novo e senti nada menos do que a mesma sensação do dia da minha primeira epifania, ou de quando escutei como ela tinha salvado Minnie May, ou mesmo da noite do concerto de Natal. É a mesma Anne Shirley. E, afinal, o cabelo dela vai crescer de novo. É como li em Downstream. “Pequenas paixões acontecem quando alguém se apaixona por o que uma pessoa parece. Essas vêm e passam, deixando quase nenhuma marca. Mas quando se apaixona por o que alguém é, por sua alma, é a semente do verdadeiro sentimento.” Eu nunca imaginei que iria reconhecer pedaços de livros nos acontecimentos da minha vida tanto quanto tem sucedido recentemente, mas aí está. No fim acho que não me importo em saber o que aconteceu com o cabelo dela. Anne parece bem, e conversou com Diana como sempre, trocando pequenos sorrisos. É o que importa para mim. Me deu forças até para suportar o grande infortúnio que está para chegar na próxima semana.

Pg 112 23 de julho

Mas minha visão registrou alguma coisa estranha lá atrás e me virei para ver o que era. Era Anne, agarrada a um dos pilares da ponte. No momento pensei que estava tendo uma alucinação e pisquei forte para ver se ela desaparecia. Mas não. Lá estava Anne, encharcada, branca de susto e se segurando no pilar com toda a força da vida. Fiquei um instante sem saber como reagir, só olhava aquela cena estranha. — Anne Shirley! – falei, enfim. – Como é que você foi parar aí? Mas logo percebi que uma pessoa agarrada num pilar não está na melhor situação para responder perguntas. Então remei para perto da ponte e estendi a mão para ela, por instinto. Minha imaginação me mostrou Anne rejeitando minha mão e preferindo ficar ali do que aceitar minha ajuda. Mas não foi o que aconteceu: Anne segurou minha mão e entrou no barco.

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Senti meu sangue ficar quente na hora. A única vez em que ela tinha me tocado antes tinha sido com uma lousa. Agora ela estava ali, tão perto de mim que eu a ouvia respirando forte. — O que aconteceu, Anne? – perguntei quando consegui. — Estávamos brincando de Elaine, e eu tinha que navegar até Camelot na barca... Quero dizer, na chata. A chata começou a vazar e eu me agarrei ao pilar. As garotas foram buscar ajuda. Podia fazer a gentileza de me levar à margem? Eu não sabia o que responder. Fiquei olhando para Anne, encolhida no outro lado do barco. Era a primeira vez que ela falava comigo em anos. Fui remando para a margem, bem devagar. Comecei a imaginar que éramos Rick e Sue, navegando no mar, certos de que eram feitos um para o outro. Tinha me sentido muito sozinho mais cedo, mas só a presença de Anne mudou tudo. Ela tinha aparecido ali para mim, tinha me dado a mão, tinha falado comigo. Me senti cheio de esperança. Anne, minha Esperança. Parecia mesmo a cena de um livro. Não conseguia tirar os olhos da garota na minha frente. Seria possível que ela não sentisse o mesmo? E durou um tempo enorme aquele pequeno trajeto. Eu queria dizer muita coisa para ela, queria que ela me dissesse tudo também, mas não consegui falar nada. Ela também não falou. Quando o barco bateu na margem ela pulou fora bem rápido e se virou para ir embora sem nem me olhar, dizendo somente: — Estou muito agradecida. Não sei o que deu em mim. A vi começar a se afastar e senti como se fosse minha última chance escapando. Me levantei e, sem nem perceber, a detive. Quando me dei conta estava com minha mão no ombro dela. Anne virou e eu senti toda a força daqueles olhos em mim mais uma vez. Mas não podia desistir. Eu tinha um segundo para decidir o que dizer para amenizar aquele rancor que ela tem de mim há dois anos, dizer que ela é para mim a mais bonita de todas e convencê-la a não me odiar. Então saiu tudo meio misturado. — Anne, veja. Não podemos ser bons amigos? Estou muito arrependido de ter zombado do seu cabelo naquela vez. Não era minha intenção te irritar, era só uma brincadeira. E além disso, já faz tanto tempo... Eu acho que seu cabelo é muito bonito agora, acho de verdade. Vamos ser amigos. Falar com Anne é muito difícil para mim, principalmente por falta de prática e improvisar nunca foi meu forte. Foi o que consegui dizer, e fiquei olhando para ela e esperando a resposta. Anne me olhou por um longuíssimo instante sem falar nada e meu coração palpitou forte. Será que finalmente minha sorte tinha mudado? — Não, nunca serei sua amiga, Gilbert Blythe, e não quero ser! Então senti algo no meu estômago afundar e todo o sangue fugir do meu rosto. Por um instante me senti muito infeliz, o alvo de tudo o que podia

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acontecer de mal numa vida. O mundo, afinal, não cansava de jogar coisas no meu caminho. Já tinha me cansado. Subiu em mim uma grande raiva de tudo e senti de novo o sangue encher meu rosto, mas agora de pura ira. — Muito bem! – falei, quase gritando. – Nunca vou te pedir para ser minha amiga de novo, Anne Shirley. E não me importo também! Saí de lá, remando furiosamente para o outro lado da ponte, querendo ficar o mais longe possível daquela garota. Parei na margem perto da casa do sr. Andrews e fui até a sua casa avisá-lo. — Teve alguma sorte? – ele me perguntou. Não consegui responder nada, e voltei para casa, atordoado, meio cego. Cheguei e me joguei na cama, imaginando que iria chorar de tristeza, mágoa, raiva e frustração, mas não consegui sentir nada. Fiquei deitado, confortavelmente dormente de sensações, por nem sei quanto tempo. E aí um monte de coisas invadiram a minha mente de uma vez: meus pais perdendo a fazenda, minha mãe chorando por eu ter ido embora, o dr. Barrett jogando minha carta no lixo, Fred morando em Charlottetown, Anne nunca mais olhando para mim... Me senti de novo totalmente sozinho e meus olhos foram se inundando bem devagar.

Pg. 121 15 de outubro A eleição não trouxe só coisas ruins. Percebi que nem todas as garotas são como Josie Pye, e é bom receber atenção em vez de lousas na cabeça. E que Anne talvez, quem sabe, não seja tão indiferente quanto ela diz ser.

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Domingo, 20 de outubro Quando estávamos voltando para casa da igreja hoje de manhã fui surpreendido por uma voz que me chamava. Era a sra. Allan. — Podemos conversar um pouco, Gilbert? Ela me levou para a casa paroquial. — O reverendo Allan já voltou? – perguntei quando chegamos. — Não – ela me respondeu. – Ele vai demorar um pouco na igreja, com as senhoras da Sociedade de Auxílio. Gostaria de que pudéssemos conversar a sós, tudo bem? — Sim, claro – respondi. Então nos sentamos na sala. — Gilbert, como você está ultimamente? Gostaria de te dizer que, se estiver passando por algum tipo de problema em casa ou na escola, ou qualquer outra dificuldade, pode contar comigo e com o sr. Allan para te ajudar. — Ah – eu respondi, surpreso. – Não, estou bem. Mas... Por quê? — Bom, durante o verão te vi muitas vezes vindo sozinho até a escola – ela disse, com um sorriso bondoso, – e te achei com uma expressão aflita todas as vezes. Imaginei que talvez alguma coisa tivesse acontecido. A princípio não consegui decidir o que fazer, mas conversei com o sr. Allan e ele me sugeriu te chamar para uma pequena conversa. Só espero que não seja tarde demais.... — Ah, não, sra. Allan! – me apressei a dizer. – Não, está tudo bem agora. Estou bem melhor. Eu tinha sido pego de surpresa e não sabia se era bom contar para ela tudo o que tinha acontecido. Olhei bem seu rosto sensato e cheio de compreesão.

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e me senti muito à vontade. Decidi contar em geral, sem entrar em muitos detalhes. Falei do problema da fazenda, das minhas dúvidas sobre o futuro e de como os garotos tinham passado um tempo sem se falar. Mas não consegui entrar no assunto de Anne. — Entendo – ela me disse depois que terminei. – Fico muito feliz que as coisas tenham entrado em caminhos melhores agora. Mas gostaria de dizer que nunca é bom guardar problemas dentro de nós, Gilbert. Isso nos corrói, nos causa muita dor. Lembre-se que está cercado de gente que te ama. Sempre que precisar de ajuda, procure. Isso não quer dizer que você é fraco, pelo contrário: reconhecer seus próprios problemas é um sinal que só os verdadeiramente fortes têm. Isso foi muito bom de escutar. Ali, sob o olhar generoso da sra. Allan, eu me sentia confortável com assuntos que eu geralmente prefiro nem pensar. — Bom – comecei a falar, – gostaria de te fazer uma pergunta... Se estiver tudo bem? — Claro que sim – ela respondeu, sorrindo, – fique à vontade. — É possível que um grande ódio se transforme em... Um sentimento mais positivo? – perguntei. Ela ficou um instante sem reagir, depois seu rosto se encheu de admiração e ela me olhou muito profundamente. — Bom, Gilbert... Se é possível? Sim, é possível, mas por que desejar tais coisas de uma pessoa que te odeia? — Por que eu... – mas não fui capaz de terminar o que tinha pensado. Tive que continuar com outras palavras. – Por que eu a quero muito bem, apesar de tudo. Senti o sangue chegar todo ao meu rosto ao terminar de falar. A sra. Allan também corou, mas logo abriu de novo o sorriso. — Gilbert, isso é muito bom – ela disse depois. – É um sentimento muito, muito bom. Mostra que você tem um coração de ouro. Mas tem certeza que essa... Pessoa te odeia, como você diz? — Estou bem certo, infelizmente – falei, sorrindo, – e uma lousa quebrada na minha cabeça pode atestar isso. A sra. Allan fez uma expressão de compreensão, surpresa e muito mais que eu não consegui decifrar, por mais que tentasse. — Talvez a pessoa não te odeie, afinal – ela falou. – E sim seja apenas uma ótima pessoa, mas um pouco confusa. — Era o que eu achava – falei. – Mas... Agora não tenho tanta certeza. Contei, sem citar nomes, o que tinha acontecido com Charlie e Moody e as coisas que ele tinha me falado sobre Anne. A sra. Allan me olhou profundamente, muito séria. Comecei a me arrepender de ter falado aquilo tudo – com certeza ela ia me repreender por dar ouvidos a fofocas. Mas ela se levantou e foi até a cozinha. Um pouco depois

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voltou com uma bandeja e duas xícaras de chá. Ela pegou uma e me ofereceu a outra. — Sabe, Gilbert – ela começou a falar, – muitas vezes eu convido algumas alunas da escola dominical para tomar chá aqui. No início eu fazia para poder conhecê-las melhor, longe do ambiente de casa, da influência de seus pais, entende? E geralmente percebo que elas são mais abertas assim, ficam mais à vontade. Depois comecei a convidá-las por apreciar a companhia. Acho que posso dizer que conheço muito bem essas meninas. Não encontro em nenhuma daquelas pequenas almas sinal de ódio puro. Vejo meninas que erram, sim, mas sentem a contrição a tempo e buscam corrigir o que fizeram. Fiquei feliz de ouvir aquilo e comecei a sentir de novo a antiga esperança. Mas aí lembrei do que Anne tinha me falado no lago, e senti um espinho me furando por dentro. — Mas e quanto a uma pessoa que demonstra ser determinada a me odiar? E que, por acaso, diz coisas cruéis sobre seus amigos? – perguntei. A sra. Allan me olhou muito fundo de novo. Ela tem esse jeito de nos olhar como se estivesse tentando identificar a sinceridade em nossa alma. — Gilbert, você se importa com ela? Mesmo? Senti tudo o que eu tinha de sangue me encher o rosto. Devia estar da mesma cor das maçãs em cima da mesa da cozinha. — Sim – respondi, enfim. — E eu acredito nisso. Então vou te contar algumas coisas, pois confio na sua honestidade e acredito que você precisa sabê-las. E também porque sei que você respeitará minha confidência. Não é mesmo? — Sim, sra. Allan. — Pois me escute. Anne Shirley, como deve saber, é órfã. Os lugares em que ela foi criada, as pessoas que ela conheceu, as coisas que ela teve que fazer para não ter seu espírito completamente quebrado... Não lhe contarei, pois acredito que ela mesma lhe contará um dia, mas posso dizer que todo o sofrimento que Anne passou deixou nela um efeito infelizmente forte demais. E além disso tem o cabelo dela. Uma garota que cresceu achando que seu cabelo é uma coisa abominável, um traço de desgraça... Meu coração se partiu mil vezes quando a ouvi contar o que já ouviu sobre seu cabelo. Por causa disso, e dos lugares negativos onde ela foi criada, Anne teve que se tornar uma garota extremamente receosa, sempre tentando se manter a salvo de mais dor. A sra. Allan tinha parado com todos os rodeios e começado a usar abertamente o nome de Anne. Primeiro fiquei intimidado, depois entendi que só o que eu podia fazer era me mostrar digno daquela confiança. Então apenas continuei escutando. — Agora, tenho que te dizer – ela continuou, – Anne chegou em Avonlea com traços ruins, isso é inegável. Para ela tudo era novo e não sabia como reagir a muita coisa. Sua primeira reação quando se sentia ameaçada era o que ela tinha sido ensinada: fúria. E infelizmente você a conheceu nesse momento.

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“Preciso admitir também que Anne sempre foi propensa a fazer discursos pouco caridosos sobre algumas pessoas. Ela mesma já admitiu isso e se esforça para mudar. E vejo arrependimento sincero nela quando falamos sobre isso. Para mim é o que importa. Você falou sobre Josie Pye: há poucos dias Anne veio me falar sobre quando ela foi ver a Exibição em Charlottetown, e eu gostaria de que você pudesse ter visto como ela estava sinceramente feliz por Josie ter ganhado um prêmio. Tenho certeza que por todos os outros ela tem a capacidade de sentir o mesmo. Gilbert, posso lhe garantir: o quanto Anne já progrediu é impressionante. As poucas pessoas positivas que ela conheceu antes de chegar aqui fizeram uma grande diferença, pois plantaram uma linda semente que precisava apenas de um bom ambiente para crescer. Esse lugar foi Avonlea. Ela encontrou aqui pessoas que a amam e que não abusam dela. Tem se tornado uma garota inteligente, simpática, doce, forte e de bons sentimentos. Se no dia em que vocês se conheceram ela te professou ódio, pode ter certeza que isso já mudou dentro do coração dela. Anne cada vez ama mais.” Aqui ela fez uma pequena pausa e eu achei que era para eu falar alguma coisa. Mas não pude. Simplesmente não consegui pensar no que dizer. — Gilbert, Anne não é perfeita – ela continuou, quando viu que eu não ia falar. – Ela é uma garota de treze anos que tem muito o que melhorar, muito o que passar, como todas as outras. Ela não é diferente de você. Não espere dela a perfeição, não espere que ela seja a resposta para tudo. — Então... O que eu faço? – perguntei, enfim. Acho que era o que eu queria falar desde o início. A sra. Allan voltou a sorrir e falou: — Viva sua vida, Gilbert. Seja você mesmo. Quando chegar o tempo, você terá outra chance com ela, eu tenho certeza. Vim para casa atordoado com tanta coisa. Tudo o que a sra. Allan me disse faz perfeito sentido, mas por alguma razão estou ainda mais confuso agora. Acho que posso entender melhor Anne, mas ainda me sinto muito magoado pelo jeito que ela agiu. Isso tudo era bem mais fácil antes, quando eu tinha minhas esperanças para me confortar.

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