1. Referência Bibliográfica
CAMPESTRINI, Danilo; VANDRESEN, Vilmar; PAULINO, Luciana. Interdisciplinaridade: a filosofia como instrumento de diálogo entre as ciências. Revista ACB: Biblioteconomia em Santa Catarina, Florianópolis, v. 5, n. 5, p. 145-166, 2000
2. Credenciais dos Autores
- Danilo Campestrini: Mestre em Educação, Biólogo, Filósofo, Professor de Filosofia e Diretor da Biblioteca Central da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI).
- Vilmar Vandresen: Mestre em Educação, Filósofo, Advogado, Professor de Filosofia, Ética e Direito Civil, e Orientador Pedagógico do Centro de Educação Superior de Ciências Sociais Aplicadas da UNIVALI.
- Luciana Paulino: Pedagoga graduada pela Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI)
3. Palavras-Chave
Inter, Multi e Transdisciplinaridade; Diálogo; Ciência; Filosofia
4. Objetivo e Tese Central
- Objetivo: Discutir e fundamentar a noção de interdisciplinaridade como o diálogo viável e consistente entre as diversas ciências, tendo como eixo articulador o processo metodológico da filosofia.
- Tese Central: A interdisciplinaridade constitui a perspectiva epistemológica mais adequada para pensar a construção, seleção e transmissão do saber, contrapondo-se aos modismos pedagógicos e à razão puramente instrumental. A filosofia desempenha um papel mediador essencial porque não concorre com os objetos específicos das ciências particulares, mas investiga seus pressupostos, princípios lógicos e finalidades, promovendo a reflexão crítica e a totalidade.
5. Estrutura e Síntese do Conteúdo
5.1. Introdução e Delimitação Conceitual
- Distinção entre termos e crítica à subalternação: muitas pesquisas científicas incorrem no fenômeno da subalternação (lógica aristotélica), no qual uma ciência emprega outra apenas funcionalmente como auxiliar, sem estabelecer colaboração mútua ou diálogo verdadeiro.
- Crítica aos modismos educacionais: os autores alertam que a interdisciplinaridade transformou-se com frequência em um modismo pedagógico dotado de forte carga ideológica, resultando em uma cultura leviana ("light") destituída de rigor lógico e epistemológico. A verdadeira interdisciplinaridade exige respeitas as especificidades e os limites próprios de cada ciência.
- Modelos equivocados de interdisciplinaridade:
- Interdisciplinaridade generalizada ou universalizante: supõe erroneamente um método ou ciência modelas capaz de unificar todos os saberes sob uma mesma regra (como a matemática em Descartes, a teologia medieval, a física ou visões mecânicas da história), ignorando as disparidades de objeto e método entre ciências humanas e exatas.
- Interdisciplinaridade instrumental ou administrativa: oriunda da razão instrumental, na qual o saber é reduzido a instrumento para fins imediatos e tecnicistas (assemelhando-se à logica fabril de montagem), sem questionar pressupostos teóricos, éticos ou finalísticos.
- Estratégias para a interdisciplinaridade autêntica: para viabilizar a real integração sem dissolver os campos do saber, apontam duas estratégias de Etges:
- Estranhamento ou deslocamento: submeter o sistema de proposições a contextos não habituais para revelar inconsistências e estruturas antes ocultas.
- Estratégia compreensiva ou esclarecedora: tornar o procedimento de uma ciência objeto de investigação de outra, permitindo avaliar alcances metodológicas sem aprisionamento dogmático.
5.2. Exigências para a Efetivação da Interdisciplinaridade
O artigo elenca requisitos fundamentais para a comunicação legítima entre disciplinas:
- Conhecimento dos princípios e da natureza do conhecimento humano (processual e ordenado por regrar lógicas)
- Fundamentação teórica e metodológica consistente
- Superação de bloqueios cognitivos, do dogmatismo, dos preconceitos e dos ídolos (conforme as prevenções e precipitações cartesianas e a teoria dos ídolos de Bacon)
- Fomento ao pensamento abstrato e conceitual, ultrapassando o imediato empírico
- Garantia de liberdade de pensamento e expressão
- Superação da didática restrita ao mundo meramente vivido, sensível ou figurativo
- Disposição ao diálogo e investigação sob a perspectiva da totalidade concreta
- Disciplina investigativa pessoal e rejeição ao relativismo e ao subjetivismo absolutos
5.3. Aspectos Configurativos do Caráter Interdisciplinar da Filosofia
- A Filosofia como Mediação Cognitiva: Fundamentados em autores como Matthew Lipman, os autores sustentam que a filosofia fornece o domínio de habilidades de raciocínio, análise conceitual, postura autocorretiva e diálogo reflexivo.
- Interrogação Radical e Epistemologia: A atitude filosófica nasce da admiração/perplexidade (Platão e Aristóteles) e busca as causas primeiras e os princípios estruturantes ("radicalidade" metafórica da raiz de uma árvore. Ela indaga o que as ciências particulares consideram como pressuposto inquestionado.
- Totalidade e Crítica às Ideologias: Diferente da soma empírica, a filosofia resguarda o vínculo com a totalidade do mundo da vida (Habermas) e com a emancipação, evitando que a falta de discernimento reflexivo dê lugar a clichês ideológicos conformistas e totalitários (Adorno). Conforme Rorty, a filosofia atua no plano cultural avaliando e fundamentando as pretensões de conhecimento.
5.4. Considerações Finais
- A pluralidade científica não deve degenerar em dogmatismos fragmentados ou especialismos estreitos ("saber sempre mais de cada vez menos").
- A interdisciplinaridade requer a cooperação e a solidariedade científica sob um horizonte ético e axiológico, no qual a filosofia atua como força unitiva que articula diversidade, rigor e compreensão do ser humano em relação ao mundo.
6. Citações Diretas Relevantes
- Sobre o conceito de interdisciplinaridade: "a interdisciplinaridade consiste em criar um objeto novo que não pertença a ninguém" (Chauí, 1994).
- Sobre o limite da visão instrumental: "o que era conhecimento numa ciência, serve apenas de meio para um fim no outro, isto é, uma ação puramente instrumental, ou menos ainda, uma execução meramente tecnicista, mas não interdisciplinar" (Etges, 1993)
- Sobre o papel da filosofia no conjunto das ciências: "Onde falta a reflexão do próprio objeto, onde falta o discernimento intelectual da ciência, instala-se em seu lugar a frase ideológica e, nesta aliança entre a ausência pura e simples da reflexão intelectual e o estereótipo da visão de mundo oficialista delineia-se uma conformação dotada de afinidades totalitárias"* (Adorno, 1995)
- Sobre a pertinência da reflexão filosófica: "Como proceder coerentemente no processo de construção do conhecimento, como conhecer profunda e relacionalmente as coisas sem filosofia?"